Lucas · 42 de 66 · Novo Testamento
Lucas — Bloco 12: O Ressuscitado: Escrituras Abertas, Comissão e Ascensão
Capítulos principais: Lucas 24:1-53 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba).
Tema central do bloco: o último capítulo de Lucas acontece inteiramente num único dia, o primeiro dia da semana, e transforma a derrota da cruz em vitória. Ao amanhecer, mulheres encontram o túmulo vazio e ouvem de dois mensageiros que Jesus está vivo. À tarde, dois discípulos caminham tristes para Emaús e são acompanhados por um viajante que lhes explica as Escrituras, até que o reconhecem ao partir o pão. À noite, o Ressuscitado aparece aos onze em Jerusalém. Mostra as mãos e os pés, come diante deles, abre a mente deles para compreenderem as Escrituras e os envia como testemunhas a todas as nações. Por fim, leva-os até Betânia, os abençoa e é elevado ao céu. Os discípulos voltam a Jerusalém com grande alegria e permanecem no templo louvando a Deus.
O capítulo tem um movimento claro.
- Da perplexidade à fé: as mulheres ficam perplexas diante do túmulo vazio, os apóstolos consideram o relato delas um delírio, os discípulos de Emaús estão abatidos e os onze pensam ver um espírito. Pouco a pouco, todos chegam à alegria e à adoração.
- Do túmulo às Escrituras: o túmulo vazio, por si só, não produz fé. A fé nasce quando a palavra de Jesus é lembrada (24:8) e quando as Escrituras são abertas (24:27, 32, 45). O Ressuscitado mostra que toda a Bíblia de Israel, a Lei de Moisés, os Profetas e os Salmos, falava dele.
- Da Páscoa à missão: a ressurreição não termina em si mesma. Ela envia os discípulos a anunciar arrependimento e perdão em nome de Jesus a todas as nações, revestidos pelo poder do Espírito prometido.
O capítulo também fecha a moldura de todo o Evangelho. Lucas começou no templo, com um sacerdote que, emudecido, não pôde abençoar o povo (1:21-22). Termina com Jesus erguendo as mãos e abençoando os discípulos, e com eles no templo, bendizendo a Deus (24:50-53). Começou com o anúncio de uma "grande alegria" para todo o povo (2:10) e termina com os discípulos voltando com "grande alegria" (24:52). O "êxodo" anunciado na transfiguração (9:31) foi plenamente cumprido: morte, ressurreição e ascensão.
Versículos-chave do Livro estudado:
- Lucas 24:1-3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — No primeiro dia da semana, as mulheres encontram a pedra removida e o túmulo sem o corpo do Senhor Jesus.
- Lucas 24:4-8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Dois homens com roupas resplandecentes anunciam que Jesus ressuscitou e lembram suas palavras sobre o terceiro dia.
- Lucas 24:9-12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — As mulheres anunciam tudo aos apóstolos, que não acreditam; Pedro corre ao túmulo e vê apenas os lençóis.
- Lucas 24:13-24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Dois discípulos caminham para Emaús e, sem reconhecê-lo, contam a Jesus o que aconteceu e a esperança que perderam.
- Lucas 24:25-27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Jesus explica, começando por Moisés e por todos os profetas, o que as Escrituras diziam a seu respeito.
- Lucas 24:28-32 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — À mesa, Jesus parte o pão, os olhos dos discípulos se abrem e eles o reconhecem; o coração deles ardia enquanto ele falava.
- Lucas 24:33-35 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Os dois voltam a Jerusalém, ouvem que o Senhor apareceu a Simão e contam como o reconheceram no partir do pão.
- Lucas 24:36-43 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Jesus aparece aos onze, mostra as mãos e os pés e come diante deles.
- Lucas 24:44-45 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Tudo o que está escrito sobre ele na Lei, nos Profetas e nos Salmos precisava se cumprir; Jesus abre a mente deles para compreenderem as Escrituras.
- Lucas 24:46-48 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O Cristo devia sofrer e ressuscitar, e em seu nome devia ser anunciado arrependimento e perdão a todas as nações; os discípulos são testemunhas.
- Lucas 24:49 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — A promessa do Pai e a ordem de esperar em Jerusalém até serem revestidos de poder do alto.
- Lucas 24:50-53 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Jesus abençoa os discípulos e é elevado ao céu; eles o adoram e voltam a Jerusalém com grande alegria.
Versículos relacionados em outros Livros da Bíblia:
- Mateus 28:1-10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Marcos 16:1-8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); João 20:1-18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Os relatos paralelos do túmulo vazio e das primeiras aparições.
- 1 Coríntios 15:3-8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — A tradição mais antiga sobre a morte, o sepultamento, a ressurreição e as aparições de Jesus, incluindo a Cefas.
- 1 Coríntios 15:12-20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Se Cristo não ressuscitou, a fé é vã; mas ele ressuscitou como primícias dos que morreram.
- Deuteronômio 19:15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O testemunho de duas ou três testemunhas estabelece um fato.
- Atos 1:10-11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Dois homens vestidos de branco na ascensão anunciam a volta de Jesus.
- João 20:3-10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Pedro e o outro discípulo correm ao túmulo e veem os lençóis.
- Salmo 16:8-11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O Santo de Deus não verá a corrupção, texto aplicado por Pedro à ressurreição (At 2:25-32 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
- Oseias 6:2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Ao terceiro dia ele nos levantará.
- Jonas 1:17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Jonas três dias e três noites no ventre do peixe, sinal aplicado por Jesus em Mateus 12:40 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba).
- Isaías 52:13–53:12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O Servo que sofre e depois é exaltado e prolonga seus dias.
- Deuteronômio 18:15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O profeta como Moisés, que o povo deveria ouvir.
- Salmo 22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e Salmo 118:22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O justo sofredor e a pedra rejeitada que se torna pedra angular.
- Atos 8:30-35 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Filipe explica Isaías 53 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) ao etíope, anunciando Jesus a partir daquela passagem.
- Atos 2:42 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e Atos 20:7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — A Igreja persevera no partir do pão.
- João 20:19-29 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Jesus aparece aos discípulos, mostra as mãos e o lado e convida Tomé a tocá-lo.
- 1 João 1:1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O que ouvimos, vimos e apalpamos com as mãos a respeito da Palavra da vida.
- Atos 10:40-41 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Os apóstolos comeram e beberam com Jesus depois que ele ressuscitou.
- Filipenses 3:20-21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e 1 Coríntios 15:42-44 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O corpo glorioso do Ressuscitado e a transformação do corpo dos crentes.
- Isaías 2:3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e Isaías 49:6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — A palavra sai de Jerusalém, e o Servo é luz para as nações.
- Isaías 32:15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O Espírito derramado do alto, que transforma o deserto.
- Joel 2:28-32 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — A promessa do Espírito derramado sobre toda carne, cumprida no Pentecostes (At 2:16-21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
- Atos 1:4-8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 2:1-4, 33 — A promessa do Pai, o poder do Espírito e o testemunho até os confins da terra.
- Levítico 9:22-23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e Números 6:22-27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Arão levanta as mãos e abençoa o povo; a bênção sacerdotal.
- Atos 1:9-11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O relato detalhado da ascensão, depois de quarenta dias.
- Salmo 110:1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e Daniel 7:13-14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O Senhor à direita de Deus e o Filho do Homem que recebe o reino.
- Efésios 4:8-10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e Hebreus 4:14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 7:25 — Cristo subiu aos céus e intercede pelos seus.
- João 20:31 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Estas coisas foram escritas para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus.
Explicação teológica e bíblica:
O túmulo vazio e o testemunho das mulheres (24:1-12)
No primeiro dia da semana, muito cedo, as mulheres vão ao túmulo levando os aromas que haviam preparado (24:1). São as mesmas que acompanharam Jesus desde a Galileia, estiveram junto à cruz e viram onde o corpo foi colocado (23:49, 55). Elas não vão esperando a ressurreição; vão cuidar de um morto. Encontram a pedra removida do túmulo, entram e não encontram o corpo do Senhor Jesus (24:2-3). É a primeira vez que Lucas usa o título completo "Senhor Jesus", que se tornará comum em Atos. O crucificado é o Senhor.
Enquanto estão perplexas, dois homens com roupas resplandecentes aparecem ao lado delas (24:4). A palavra que descreve o brilho das roupas lembra a transfiguração, quando as roupas de Jesus brilharam (9:29). São dois, como as duas testemunhas exigidas pela Lei para confirmar um fato (Dt 19:15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Dois homens vestidos de branco também aparecerão na ascensão (At 1:10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). As mulheres ficam com medo e inclinam o rosto para o chão. Os homens perguntam por que elas procuram entre os mortos aquele que está vivo. Ele não está ali, mas ressuscitou (24:5-6). O verbo ēgerthē está na voz passiva, "foi levantado", indicando que foi Deus quem o ressuscitou. É o chamado "passivo divino", forma comum nas Escrituras de falar da ação de Deus.
Os mensageiros pedem que elas se lembrem do que Jesus lhes falou quando ainda estava na Galileia (24:6-7). Era necessário (dei) que o Filho do Homem fosse entregue nas mãos de pecadores, fosse crucificado e ressuscitasse ao terceiro dia. Jesus anunciou isso várias vezes (9:22, 44; 18:31-33). Então elas se lembram das palavras dele (24:8). A fé começa a nascer não da visão do túmulo vazio, mas da lembrança da palavra de Jesus. A ressurreição não foi um acidente inesperado; foi o cumprimento do que ele havia anunciado.
As mulheres voltam do túmulo e anunciam tudo aos onze e a todos os outros (24:9). Lucas registra seus nomes: Maria Madalena, Joana e Maria, mãe de Tiago, além de outras que estavam com elas (24:10). Maria Madalena e Joana já haviam sido apresentadas como mulheres curadas que sustentavam a missão com seus bens (8:2-3). Elas são as primeiras anunciadoras da ressurreição. Mas os apóstolos consideram o relato delas um delírio (lēros, "conversa sem sentido") e não acreditam (24:11).
O detalhe é historicamente significativo. No mundo judaico do primeiro século, o testemunho de mulheres tinha pouco valor legal. Flávio Josefo registra que o testemunho delas não era admitido nos tribunais (Antiguidades Judaicas 4.8.15). Se os primeiros cristãos estivessem inventando uma história para convencer as pessoas, dificilmente teriam escolhido mulheres como as primeiras testemunhas. Também não teriam mostrado os apóstolos como incrédulos. N. T. Wright (The Resurrection of the Son of God, 2003) considera esse dado um forte indício de que os relatos preservam uma lembrança histórica, e não uma construção apologética. Deus escolheu como primeiras testemunhas justamente aquelas cuja palavra a sociedade desvalorizava.
Pedro, porém, se levanta e corre ao túmulo (24:12). Inclinando-se para olhar dentro, vê apenas os lençóis de linho e volta para casa admirado com o que tinha acontecido. João narra a mesma cena com mais detalhes, mencionando também o discípulo amado (Jo 20:3-10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Pedro vê a evidência, mas ainda não compreende. O túmulo vazio provoca admiração, mas a fé plena virá com o encontro com o Ressuscitado.
Há uma observação textual a fazer sobre todo o capítulo. Algumas frases de Lucas 24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) não aparecem no Códice de Beza e em algumas antigas versões latinas, como o versículo 12, a menção da elevação ao céu no versículo 51 e a adoração no versículo 52. No século XIX, Westcott e Hort as consideraram acréscimos posteriores e as chamaram de "não interpolações ocidentais". Hoje, a maioria dos especialistas as aceita como parte do texto original, porque estão presentes nos manuscritos mais antigos, como o Papiro 75.
O caminho de Emaús e o reconhecimento no partir do pão (24:13-35)
Naquele mesmo dia, dois discípulos estão a caminho de uma aldeia chamada Emaús, a cerca de sessenta estádios de Jerusalém, aproximadamente onze quilômetros (24:13). Alguns manuscritos falam em cento e sessenta estádios. A localização exata de Emaús é incerta e há vários candidatos. Flávio Josefo menciona uma localidade chamada Emaús, a trinta estádios de Jerusalém, onde o imperador Vespasiano instalou veteranos romanos (Guerra Judaica 7.6.6). O episódio é exclusivo de Lucas.
Os dois conversam sobre tudo o que tinha acontecido. Enquanto conversam e discutem, o próprio Jesus se aproxima e começa a caminhar com eles, mas os olhos deles estão impedidos de reconhecê-lo (24:14-16). O verbo está na voz passiva: seus olhos "eram retidos". O texto sugere que o reconhecimento depende de Deus abrir os olhos, e não apenas de ver fisicamente.
Jesus pergunta sobre o que estão conversando, e eles param, com o rosto triste (24:17). Um deles, chamado Cléopas, pergunta se ele é o único visitante em Jerusalém que não sabe o que aconteceu naqueles dias (24:18). Alguns identificam Cléopas com o Clopas mencionado em João 19:25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). Eusébio de Cesareia, citando o historiador Hegesipo, registra a tradição de que Clopas era irmão de José, o pai legal de Jesus (História Eclesiástica 3.11). Se for assim, o outro discípulo poderia ser a esposa de Cléopas. A identificação é possível, mas não pode ser confirmada.
Jesus pergunta o que aconteceu, e os dois resumem os fatos (24:19-24). Jesus de Nazaré era um profeta poderoso em obras e palavras diante de Deus e de todo o povo. Os chefes dos sacerdotes e as autoridades o entregaram para ser condenado à morte e o crucificaram. Eles esperavam que fosse ele quem iria libertar (lytroō, "resgatar", "redimir") Israel. A expressão lembra a esperança de Zacarias, que cantou a redenção do povo (1:68), e de Ana, que falava a todos os que esperavam a redenção de Jerusalém (2:38). Mas já era o terceiro dia. Algumas mulheres do grupo os assustaram: foram ao túmulo de madrugada, não encontraram o corpo e disseram ter tido uma visão de anjos que afirmavam que ele estava vivo. Alguns dos companheiros foram ao túmulo e encontraram tudo como as mulheres disseram, mas a ele não viram.
O resumo dos dois discípulos é, em si, um pequeno anúncio do evangelho. Contém o ministério de Jesus, sua morte, o túmulo vazio e a notícia de que está vivo. Mas falta a fé. Eles têm todos os fatos, mas os interpretam como derrota. A frase "nós esperávamos" está no passado: a esperança morreu com a cruz.
Jesus então os repreende, chamando-os de insensatos e lentos de coração para crer em tudo o que os profetas disseram (24:25). E pergunta se não era necessário (edei) que o Cristo sofresse essas coisas e entrasse na sua glória (24:26). O sofrimento não foi o fracasso do plano de Deus, mas o caminho necessário para a glória. É o mesmo dei que atravessou todo o Evangelho, desde as primeiras palavras de Jesus no templo (2:49).
Começando por Moisés e passando por todos os profetas, Jesus lhes explica (diermēneuō, de onde vem "hermenêutica") o que dizia respeito a ele em todas as Escrituras (24:27). Lucas não registra quais textos Jesus explicou, mas os discursos dos apóstolos em Atos dão pistas. Eles citam:
- o profeta como Moisés (Dt 18:15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); At 3:22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba));
- o Servo sofredor de Isaías 53 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) (At 8:32-35 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba));
- o Santo que não veria a corrupção (Sl 16:8-11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); At 2:25-32 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba));
- a pedra rejeitada (Sl 118:22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); At 4:11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba));
- o Senhor à direita de Deus (Sl 110:1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); At 2:34-35 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
C. H. Dodd (According to the Scriptures, 1952) mostrou que os primeiros cristãos usavam conjuntos de textos do Antigo Testamento lidos à luz de Cristo. Essa leitura remontaria ao próprio ensino de Jesus. Richard B. Hays (Reading Backwards, 2014) mostrou que a cena de Emaús oferece a chave para ler os Evangelhos e todo o Antigo Testamento: lê-los "de trás para frente", a partir da ressurreição, e descobrir que Cristo estava presente em toda a história de Israel.
Ao se aproximarem da aldeia, Jesus faz como quem vai seguir adiante (24:28). Mas os dois insistem com ele que fique, porque a tarde está caindo e o dia já está terminando (24:29). Ele entra para ficar com eles. A hospitalidade dos discípulos abre espaço para a revelação.
À mesa, Jesus toma o pão, o abençoa, o parte e o dá a eles (24:30). São os mesmos quatro gestos da multiplicação dos pães (9:16) e da última ceia (22:19). Nesse momento, os olhos deles se abrem e eles o reconhecem, mas ele desaparece da vista deles (24:31). O verbo "abrir" (dianoigō) aparecerá de novo quando Jesus abrir a mente dos onze para compreenderem as Escrituras (24:45). Alguns intérpretes observam que a Septuaginta usa o mesmo verbo em Gênesis 3:7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), quando os olhos de Adão e Eva se abriram depois de comerem o fruto. Lá, o comer trouxe vergonha; em Emaús, a refeição com o Ressuscitado traz reconhecimento e alegria. A leitura é temática e sugestiva, mas o texto não a desenvolve.
Os dois dizem um ao outro que o coração deles ardia (kaiomenē) enquanto Jesus lhes falava pelo caminho e lhes explicava as Escrituras (24:32). O reconhecimento aconteceu à mesa, mas a transformação começou no caminho, enquanto ouviam a palavra. Na mesma hora, eles se levantam e voltam para Jerusalém (24:33). Fazem os onze quilômetros de volta, provavelmente já à noite, o que mostra a urgência da notícia.
Encontram os onze reunidos com os outros, que lhes dizem que o Senhor realmente ressuscitou e apareceu a Simão (24:34). A aparição a Pedro não é narrada em detalhe por nenhum Evangelho, mas Paulo a menciona como a primeira aparição a um dos apóstolos (1Co 15:5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Pedro, que havia negado Jesus, recebe uma aparição pessoal: a oração de Jesus por ele (22:32) se cumpriu. Os dois contam então o que aconteceu no caminho e como reconheceram Jesus no partir do pão (24:35). A expressão "partir do pão" (klasis tou artou) se tornará em Atos o nome da refeição da comunidade cristã (At 2:42 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 20:7). Os discípulos de Emaús mostram as duas formas pelas quais o Ressuscitado continua presente na Igreja: na palavra explicada e no pão partido.
O corpo ressurreto e as Escrituras cumpridas (24:36-45)
Enquanto ainda falam, Jesus aparece no meio deles e lhes deseja a paz (24:36). A saudação é a tradicional saudação judaica (shalom), mas, na boca do Ressuscitado, ganha um sentido pleno: é a paz anunciada pelos anjos no nascimento (2:14) e que Jerusalém não reconheceu (19:42). Os discípulos ficam espantados e com medo, pensando que estão vendo um espírito (24:37).
Jesus pergunta por que estão perturbados e por que surgem dúvidas em seus corações (24:38). Manda que vejam suas mãos e seus pés, porque é ele mesmo. Manda também que o toquem e vejam, porque um espírito não tem carne e ossos, como eles veem que ele tem (24:39). E lhes mostra as mãos e os pés (24:40). As marcas da cruz permanecem no corpo ressuscitado, como João também registra (Jo 20:20, 27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Os discípulos ainda não acreditam, mas Lucas explica o motivo com delicadeza: é por causa da alegria e do espanto (24:41). A notícia parecia boa demais para ser verdade. Jesus então pergunta se eles têm ali alguma coisa para comer. Eles lhe dão um pedaço de peixe assado, e ele o come diante deles (24:42-43). Pedro dirá mais tarde que os apóstolos comeram e beberam com Jesus depois da ressurreição (At 10:41 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
A insistência de Lucas na realidade física do corpo ressuscitado é intencional. A ressurreição não é a sobrevivência da alma nem uma visão espiritual, mas a transformação do mesmo corpo que foi crucificado e sepultado. Jesus pode ser tocado e come, mas também aparece e desaparece, e não é reconhecido de imediato. É o mesmo corpo, mas transformado. Paulo descreverá esse corpo como "espiritual", não porque seja imaterial, mas porque é plenamente animado pelo Espírito de Deus e imperecível (1Co 15:42-44 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). No início do século II, Inácio de Antioquia citou uma tradição semelhante, em que Jesus convida os discípulos a tocá-lo para verem que não é um espírito sem corpo (Carta aos Esmirnenses 3). Inácio a usou contra o docetismo, a doutrina que negava a realidade física do corpo de Jesus.
Jesus então lembra aos discípulos que, quando ainda estava com eles, lhes disse que era necessário (dei) que se cumprisse tudo o que estava escrito sobre ele na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos (24:44). A divisão em três partes corresponde à organização da Bíblia hebraica: a Lei (Torá), os Profetas (Neviim) e os Escritos (Ketuvim), dos quais os Salmos eram o primeiro e mais conhecido livro. O prólogo do livro de Eclesiástico, escrito por volta de 132 a.C., já mencionava essa divisão tripartite. Jesus afirma que toda a Escritura, em todas as suas partes, fala dele.
Então Jesus abre a mente deles para compreenderem as Escrituras (24:45). O que os discípulos não conseguiam entender nos anúncios da paixão, porque "estava encoberto" para eles (9:45; 18:34), agora se torna claro. A compreensão das Escrituras não é apenas resultado de estudo; é um dom do Ressuscitado.
A missão a todas as nações e a promessa do Espírito (24:46-49)
Jesus resume o que está escrito (24:46-47). O Cristo devia sofrer e ressuscitar dos mortos ao terceiro dia. E em seu nome devia ser anunciado o arrependimento para o perdão dos pecados a todas as nações, começando por Jerusalém. Alguns manuscritos trazem "arrependimento e perdão", e outros "arrependimento para o perdão"; o sentido é praticamente o mesmo. A missão está incluída no que as Escrituras anunciavam. Não é só a morte e a ressurreição do Messias que estão escritas, mas também a pregação a todos os povos. Isaías havia anunciado que a palavra sairia de Jerusalém (Is 2:3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e que o Servo seria luz para as nações (Is 49:6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), como Simeão reconheceu no menino Jesus (2:32).
O conteúdo da mensagem é o mesmo que João Batista pregava (3:3) e que Jesus anunciou em Nazaré (4:18): arrependimento e perdão, metanoia e aphesis. Mas agora ele é anunciado "em seu nome", isto é, com base na morte e ressurreição de Jesus e pela sua autoridade. "Começando por Jerusalém" antecipa o roteiro de Atos: Jerusalém, Judeia, Samaria e os confins da terra (At 1:8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Jesus declara que os discípulos são testemunhas (martyres) dessas coisas (24:48). A palavra grega, que depois daria origem a "mártir", designa quem viu e pode atestar. Os apóstolos não anunciarão uma teoria, mas aquilo que viram e ouviram. Lucas, que no prólogo apoiou sua obra no testemunho das testemunhas oculares (1:2), mostra agora a origem desse testemunho.
Por fim, Jesus anuncia que vai enviar a eles o que o Pai prometeu. Devem permanecer na cidade até serem revestidos de poder do alto (24:49). A "promessa do Pai" é o Espírito Santo, anunciado pelos profetas (Jl 2:28-32 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e, em Lucas, prometido por João Batista (3:16) e pelo próprio Jesus (11:13). A imagem de ser "revestido" é a de vestir uma roupa: o Espírito virá sobre eles como um manto de poder. A expressão "do alto" lembra Isaías 32:15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), que fala do Espírito derramado do alto. Os discípulos não devem começar a missão com suas próprias forças, mas esperar o poder de Deus. Atos começará exatamente nesse ponto, com a repetição da promessa (At 1:4-8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e com o Pentecostes (At 2:1-4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
A bênção, a ascensão e a alegria no templo (24:50-53)
Jesus leva os discípulos para fora da cidade, até perto de Betânia, na encosta do monte das Oliveiras (24:50). Ali levanta as mãos e os abençoa. O gesto é sacerdotal. Arão levantou as mãos e abençoou o povo depois de oferecer os sacrifícios (Lv 9:22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e os sacerdotes abençoavam Israel com a bênção de Números 6:22-27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). O livro de Eclesiástico, um livro deuterocanônico, descreve o sumo sacerdote Simão levantando as mãos para abençoar o povo no templo, e o povo se prostrando (Eclo 50:20-21).
O contraste com o início do Evangelho é notável. Lucas começou com o sacerdote Zacarias saindo do santuário sem conseguir falar e, portanto, sem conseguir pronunciar a bênção que o povo esperava (1:21-22). Termina com Jesus, o sumo sacerdote definitivo, levantando as mãos e abençoando os seus. A bênção que ficou suspensa no início é dada no fim.
Enquanto os abençoa, Jesus se separa deles e é elevado ao céu (24:51). A ascensão encerra o Evangelho de Lucas e abre o livro de Atos, que a narra com mais detalhes (At 1:9-11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Em Atos, Lucas informa que Jesus apareceu aos discípulos durante quarenta dias antes da ascensão (At 1:3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). No Evangelho, os acontecimentos parecem se concentrar num único dia. Não há contradição, mas compressão literária: o Evangelho resume, e Atos detalha. Lucas, como autor das duas obras, sabia disso e escolheu fechar o primeiro volume com a ascensão e abrir o segundo com ela.
A ascensão tem um significado teológico profundo.
- A entronização: Jesus é exaltado à direita de Deus, como anunciou diante do Sinédrio (22:69) e como afirma o Salmo 110:1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). O Filho do Homem recebe o reino, como em Daniel 7:13-14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba).
- A intercessão: Jesus vive no céu como sumo sacerdote que intercede pelos seus (Hb 4:14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 7:25).
- O envio do Espírito: é do céu que o Cristo exaltado derramará o Espírito prometido (At 2:33 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
- A promessa da volta: os dois homens vestidos de branco anunciarão que Jesus voltará da mesma forma como foi visto subir (At 1:11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Os discípulos o adoram (proskyneō) (24:52). É a primeira vez em Lucas que os discípulos adoram Jesus. No deserto, Jesus havia respondido ao diabo que só Deus deve ser adorado (4:8). Agora os discípulos se prostram diante dele. Lucas não explica, mas o gesto revela que eles reconhecem em Jesus aquele que compartilha a glória de Deus.
Eles voltam para Jerusalém com grande alegria e permanecem continuamente no templo, bendizendo a Deus (24:52-53). A "grande alegria" retoma o anúncio do anjo aos pastores (2:10). O templo, onde o Evangelho começou, é onde ele termina. O homem que não pôde abençoar no início dá lugar a uma comunidade que bendiz a Deus sem cessar. O fim do Evangelho não é uma despedida triste, mas uma comunidade cheia de alegria, adoração e expectativa, esperando o poder do alto para começar a missão.
A ressurreição como fundamento da fé
A ressurreição de Jesus é o centro da fé cristã. Paulo afirma que, se Cristo não ressuscitou, a pregação é vazia e a fé é inútil, e os crentes ainda estão em seus pecados (1Co 15:14, 17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Por isso, a pergunta sobre a historicidade da ressurreição sempre foi central.
O testemunho mais antigo da ressurreição não está nos Evangelhos, mas em 1 Coríntios 15:3-8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). Ali Paulo transmite uma tradição que ele mesmo recebeu. Muitos estudiosos datam essa tradição de poucos anos depois da morte de Jesus. Ela menciona a morte, o sepultamento, a ressurreição ao terceiro dia e uma série de aparições: a Cefas, aos doze, a mais de quinhentos irmãos de uma vez, a Tiago e a todos os apóstolos.
Ao longo da história, foram propostas várias explicações alternativas para o túmulo vazio e as aparições.
- O roubo do corpo: os discípulos teriam roubado o corpo, versão que Mateus diz ter circulado já no primeiro século (Mt 28:11-15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
- As alucinações: as aparições seriam experiências subjetivas.
- O túmulo errado: as mulheres teriam ido a um túmulo diferente.
N. T. Wright (The Resurrection of the Son of God, 2003) analisou essas hipóteses e argumentou que nenhuma delas explica adequadamente o conjunto dos dados. Esses dados são o túmulo vazio, as aparições a muitas pessoas em situações diferentes, a transformação dos discípulos, que passaram do medo à disposição de morrer pelo testemunho, e o surgimento imediato da fé cristã entre judeus. O próprio relato de Lucas responde implicitamente a algumas dessas hipóteses. As mulheres sabiam onde o corpo havia sido colocado (23:55). Os discípulos não esperavam a ressurreição e inicialmente não acreditaram (24:11). E o Ressuscitado tinha um corpo que podia ser tocado e que comia (24:39-43).
A fé na ressurreição, porém, não é apenas a conclusão de uma investigação histórica. É uma resposta ao encontro com o Ressuscitado, mediado pela palavra e pelo Espírito, como mostram os discípulos de Emaús. Lucas oferece fundamentos sólidos para essa fé, mas, como em todo o Evangelho, ela depende de olhos abertos por Deus.
A contribuição do bloco para o livro e para a Bíblia
Este capítulo é o desfecho de todo o Evangelho de Lucas e a ponte para o livro de Atos. Ele cumpre o que foi anunciado ao longo de toda a obra. O "êxodo" da transfiguração se completa na morte, ressurreição e ascensão. Os três anúncios da paixão, que os discípulos não compreendiam, se cumprem e se tornam compreensíveis. A salvação anunciada a Israel se abre a todas as nações. O Espírito prometido está prestes a ser derramado.
O capítulo também fecha a moldura literária do Evangelho. Começa e termina no templo, começa e termina com "grande alegria", começa com um sacerdote mudo e termina com Jesus abençoando. A narrativa que começou com a esperança dos fiéis de Israel, Zacarias, Isabel, Maria, Simeão e Ana, termina com uma comunidade de testemunhas que leva essa esperança cumprida a todo o mundo.
Para a Bíblia como um todo, o capítulo 24 de Lucas é fundamental, porque oferece a chave de leitura de toda a Escritura. Jesus ensina que a Lei, os Profetas e os Salmos falam dele, e que o Cristo devia sofrer e entrar na sua glória. A leitura cristocêntrica das Escrituras não é uma invenção posterior da Igreja: tem raiz no ensino do próprio Ressuscitado no caminho de Emaús e no cenáculo.
Visão cristocêntrica: este capítulo é a fonte da visão cristocêntrica de toda a Bíblia, e a conexão com Cristo é direta e explícita em cada cena.
Jesus é o Vivente (24:5), o Senhor ressuscitado que venceu a morte, como havia anunciado. O crucificado foi levantado por Deus, confirmando tudo o que ele disse e fez.
Jesus é o centro das Escrituras (24:27, 44). O próprio Ressuscitado declara que Moisés, os Profetas e os Salmos falavam dele, e abre a mente dos discípulos para compreenderem isso. Este é o fundamento da interpretação cristocêntrica de toda a Bíblia: a história de Israel, suas leis, seus sacrifícios, seus profetas e seus cânticos encontram em Cristo seu sentido pleno.
Jesus é o anfitrião que se revela no partir do pão (24:30-31, 35). Ele continua presente na comunidade que se reúne em seu nome, na palavra explicada e na mesa compartilhada.
Jesus é o Senhor ressuscitado em corpo (24:39-43). Sua ressurreição é real e corporal, e por isso é a garantia da ressurreição dos que pertencem a ele (1Co 15:20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Fp 3:21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Jesus é aquele em cujo nome se anuncia o perdão a todas as nações (24:47). O perdão dos pecados prometido na nova aliança é oferecido a todos os povos com base em sua morte e ressurreição.
Jesus é quem envia o Espírito, a promessa do Pai (24:49). Exaltado, ele derramará o Espírito sobre a Igreja (At 2:33 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Jesus é o sumo sacerdote que abençoa (24:50-51). Ele completa a bênção que o sacerdote Zacarias não pôde dar no início do Evangelho e, elevado ao céu, intercede pelos seus (Hb 7:25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Jesus é digno de adoração (24:52). Os discípulos o adoram, reconhecendo nele aquele que compartilha a glória que pertence somente a Deus (4:8).
Aplicações espirituais e práticas:
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Não procurar o Vivente entre os mortos. As mulheres foram ao túmulo procurar um morto, e ouviram que Jesus está vivo. Também hoje é possível tratar Jesus como uma lembrança do passado, um grande mestre que morreu ou uma figura religiosa do tempo antigo. A fé cristã afirma que Jesus está vivo e presente. Isso muda a forma de orar, de ler a Bíblia e de viver: não nos relacionamos com uma memória, mas com o Senhor ressuscitado.
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Lembrar as palavras de Jesus. As mulheres começaram a crer quando se lembraram do que Jesus havia dito. Em momentos de crise, perda ou confusão, a fé é sustentada pela lembrança das promessas de Cristo. Conhecer e guardar a palavra de Deus nos prepara para reconhecer sua ação quando as circunstâncias parecem dizer o contrário.
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Deus escolhe testemunhas improváveis. As primeiras testemunhas da ressurreição foram mulheres, cujo testemunho tinha pouco valor legal na época. Deus não depende do prestígio social de seus mensageiros. Isso valoriza o testemunho de todos os que creem, e de modo especial reconhece o papel das mulheres na vida e na missão da Igreja desde o início.
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A dúvida honesta não afasta Jesus. Os apóstolos não acreditaram nas mulheres, os discípulos de Emaús estavam desanimados e os onze pensaram ver um espírito. Jesus não os rejeitou por suas dúvidas. Ele caminhou com eles, explicou, mostrou as mãos e os pés e comeu diante deles. Para quem enfrenta dúvidas, o Ressuscitado é paciente e oferece razões para crer.
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Jesus caminha conosco mesmo quando não o reconhecemos. Os discípulos de Emaús caminhavam tristes, com a esperança perdida, e Jesus estava ao lado deles sem que percebessem. Em momentos de luto, decepção ou fracasso, Jesus pode estar caminhando conosco, mesmo quando não o reconhecemos. Muitas vezes, só depois percebemos que o coração ardia enquanto ele falava.
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Ler a Bíblia com Cristo no centro. Jesus explicou aos discípulos o que toda a Escritura dizia a seu respeito, e o coração deles ardeu. A leitura da Bíblia que coloca Cristo no centro não é uma técnica artificial, mas o caminho ensinado pelo próprio Ressuscitado. Ela transforma o estudo bíblico de um exercício intelectual em um encontro que aquece o coração. Para quem ensina, prega ou escreve sobre a Bíblia, este é o modelo: abrir as Escrituras para mostrar Cristo.
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A hospitalidade que abre espaço para a revelação. Os discípulos insistiram para que o viajante ficasse com eles, e foi à mesa que o reconheceram. A hospitalidade, a mesa compartilhada e o acolhimento de estranhos são espaços em que Deus se revela. A Igreja reconhece o Ressuscitado no partir do pão, e cada mesa aberta pode se tornar um lugar de encontro com ele.
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A alegria que não se guarda. Assim que reconheceram Jesus, os discípulos de Emaús voltaram imediatamente a Jerusalém, mesmo à noite, para contar o que aconteceu. A experiência com o Ressuscitado não é para ser guardada, mas compartilhada. A alegria da fé se multiplica quando é anunciada.
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A esperança da ressurreição do corpo. Jesus ressuscitou com um corpo real, que podia ser tocado e que comia. A esperança cristã não é apenas a sobrevivência da alma, mas a ressurreição do corpo transformado. Isso dá dignidade ao corpo, ao cuidado com a saúde e à vida concreta. Também consola quem perdeu pessoas queridas, porque a promessa é de reencontro numa vida plena e corporal.
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A missão começa onde estamos. Jesus enviou os discípulos a todas as nações, mas "começando por Jerusalém", onde eles estavam. A missão cristã tem alcance universal, mas começa no lugar onde cada um vive: na família, no trabalho, na cidade. O conteúdo continua o mesmo: arrependimento e perdão dos pecados em nome de Jesus.
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Esperar o poder do alto. Jesus mandou os discípulos esperarem em Jerusalém até serem revestidos de poder. Antes de agir, era preciso receber. Em um mundo que valoriza a ação imediata e a autossuficiência, a ordem de Jesus lembra que a obra de Deus não se faz apenas com competência humana, mas com o poder do Espírito. Para líderes e realizadores, esperar em oração não é perda de tempo, mas condição para a fecundidade.
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Viver sob a bênção do Senhor. As últimas imagens de Jesus em Lucas são as mãos levantadas para abençoar. Os discípulos foram para a missão sob essa bênção. Cada cristão vive debaixo das mãos abençoadoras de Cristo, que intercede por ele no céu. Essa certeza sustenta a vida nos momentos difíceis e é fonte de gratidão.
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Uma vida de adoração e alegria. O Evangelho termina com os discípulos adorando Jesus, voltando com grande alegria e bendizendo a Deus continuamente. A resposta adequada à ressurreição não é apenas aceitar uma verdade, mas adorar, alegrar-se e viver em louvor. A alegria cristã não ignora o sofrimento, porque passou pela cruz, mas se apoia na vitória da vida sobre a morte.
Sabedoria para o Cotidiano
Lucas começa no templo, com um sacerdote mudo que não conseguiu abençoar, e termina com o Ressuscitado levantando as mãos para abençoar os seus e com uma comunidade que bendiz a Deus sem cessar. Entre um e outro, há uma cruz e um túmulo vazio. Os discípulos que caminhavam tristes para Emaús descobriram que Jesus andava ao lado deles, que toda a Escritura falava dele e que ele se dava a conhecer no partir do pão. Esse mesmo Senhor continua caminhando conosco nas estradas da decepção, abrindo as Escrituras para aquecer o coração e enviando-nos com poder do alto. Por isso, a última palavra do Evangelho não é de despedida, mas de grande alegria: o Vivente reina, abençoa e voltará.