Antigo Testamento · Profetas
Daniel
- Outros nomes
Beltessazar, nome babilônico que recebeu na corte de Nabucodonosor (Dn 1.7; Dn 4.8)
- Significado do nome
Daniel significa "Deus é o meu juiz"; Beltessazar é um nome babilônico que invoca a proteção de um deus para a vida do rei, ligado, segundo o próprio Nabucodonosor, ao nome do seu deus (Dn 4.8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba))
- Posição / vínculo com a Bíblia
Jovem da nobreza de Judá levado para a Babilônia em 605 a.C., que decidiu não se contaminar com a comida do rei; interpretou os sonhos de Nabucodonosor e a escrita na parede no banquete de Belsazar, serviu como alto oficial sob babilônios e persas durante cerca de setenta anos e foi lançado na cova dos leões por continuar orando ao seu Deus; recebeu visões dos quatro reinos, do Filho do Homem, das setenta semanas e da ressurreição; Jesus o chamou de profeta (Dn 1–12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Ez 14.14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Mt 24.15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba))
- Nascimento
Provavelmente em Jerusalém, de família real ou nobre de Judá, por volta de 620 a.C. (Dn 1.3-6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba))
- Testamento
Antigo Testamento
- Grupo
Profetas
- Onde aparece
Ez 14.14,20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Ez 28.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Dn 1–12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Mt 24.15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Mc 13.14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Hb 11.33 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)
Síntese histórica
Daniel era um jovem da família real ou da nobreza de Judá, levado para a Babilônia por Nabucodonosor por volta de 605 a.C., junto com Hananias, Misael e Azarias, para ser educado e servir no palácio (Dn 1.1-7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Decidiu não se contaminar com a comida e o vinho do rei, e Deus lhe deu sabedoria e entendimento de visões e sonhos (Dn 1.8-17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Interpretou o sonho de Nabucodonosor sobre uma grande estátua, tornou-se governador da província da Babilônia e chefe dos sábios (Dn 2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e mais tarde interpretou o sonho da árvore cortada (Dn 4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Já idoso, leu a misteriosa escrita na parede do palácio de Belsazar, anunciando a queda da Babilônia, que aconteceu naquela mesma noite (Dn 5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Sob o domínio persa, Daniel ocupou um alto cargo no governo. Os seus rivais conseguiram que o rei Dario proibisse qualquer oração a outro que não fosse o rei; Daniel continuou a orar três vezes por dia com as janelas abertas para Jerusalém e foi lançado na cova dos leões, mas Deus o livrou (Dn 6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Recebeu visões dos reinos que se sucederiam na história, de um como Filho do Homem que receberia um reino eterno, das setenta semanas e da ressurreição dos mortos (Dn 7–12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Ainda vivia no terceiro ano de Ciro, rei da Pérsia, e recebeu a promessa de que se levantaria para receber a sua herança no fim dos dias (Dn 10.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Dn 12.13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
História
Contexto e origem
No terceiro ano de Jeoaquim, rei de Judá, Nabucodonosor sitiou Jerusalém e levou para a Babilônia parte dos utensílios do templo (Dn 1.1-2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Ordenou ao chefe dos seus oficiais que escolhesse entre os israelitas alguns jovens da família real e da nobreza, sem nenhum defeito, de boa aparência, instruídos, inteligentes e capazes de servir no palácio, para que aprendessem a língua e a literatura dos caldeus durante três anos (Dn 1.3-5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Entre eles estavam Daniel, Hananias, Misael e Azarias, que receberam os nomes babilônicos de Beltessazar, Sadraque, Mesaque e Abede-Nego (Dn 1.6-7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Daniel era provavelmente um adolescente. Isaías havia anunciado a Ezequias que alguns dos seus descendentes seriam levados para servir no palácio do rei da Babilônia (Is 39.7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e alguns intérpretes veem nessa profecia uma referência a Daniel e aos seus companheiros.
A decisão à mesa do rei
Os jovens deveriam receber diariamente uma porção das comidas e do vinho da mesa do rei. Mas Daniel decidiu no seu coração não se contaminar com eles, e pediu ao chefe dos oficiais permissão para não se contaminar (Dn 1.8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O texto não explica exatamente o motivo; muitos intérpretes entendem que aquela comida incluía alimentos proibidos pela Lei de Moisés ou oferecidos aos deuses babilônicos, e que a decisão de Daniel era uma forma de preservar a sua identidade como servo do Senhor num ambiente que procurava transformá-lo.
Deus concedeu a Daniel o favor do chefe dos oficiais, mas ele temia ser punido se os jovens parecessem mais fracos do que os outros (Dn 1.9-10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Daniel propôs ao encarregado um teste de dez dias, comendo apenas vegetais e bebendo água; ao fim do prazo, eles estavam com melhor aparência e mais saudáveis do que os jovens que comiam da mesa do rei (Dn 1.11-16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Deus deu aos quatro conhecimento e inteligência em toda a cultura e sabedoria, e a Daniel deu também entendimento de visões e sonhos. Quando foram apresentados ao rei, ele os achou dez vezes mais sábios do que todos os magos e encantadores do seu reino (Dn 1.17-20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). E o texto acrescenta que Daniel permaneceu ali até o primeiro ano do rei Ciro (Dn 1.21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) — isto é, durante todo o período babilônico.
O sonho da estátua
No segundo ano do seu reinado, Nabucodonosor teve um sonho que o perturbou e exigiu que os sábios lhe contassem o sonho e a sua interpretação, decretando a morte de todos quando eles disseram que isso era impossível (Dn 2.1-13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Quando os executores foram buscar Daniel e os seus companheiros, Daniel falou ao comandante da guarda com prudência e sabedoria, pediu tempo ao rei e foi orar com os seus amigos, para que pedissem misericórdia ao Deus do céu (Dn 2.14-18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Naquela noite, o mistério lhe foi revelado numa visão, e Daniel louvou a Deus: bendito seja o nome de Deus para sempre, porque dele são a sabedoria e o poder; ele muda os tempos e as estações, remove reis e estabelece reis, dá sabedoria aos sábios e revela o que é profundo e oculto (Dn 2.19-22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Diante do rei, Daniel não reivindicou nenhum mérito: disse que nenhum sábio poderia revelar aquele mistério, e que não era por ter mais sabedoria do que os outros que ele o conhecia, mas porque há um Deus no céu que revela os mistérios (Dn 2.27-30 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Contou ao rei o sonho da estátua de ouro, prata, bronze, ferro e barro, destruída por uma pedra que se tornou uma montanha, e explicou que, depois dos reinos humanos, o Deus do céu levantaria um reino que jamais seria destruído (Dn 2.31-45 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O rei o fez governador de toda a província da Babilônia e chefe de todos os sábios, e, a pedido de Daniel, nomeou os seus três companheiros para cargos na província (Dn 2.48-49 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
O sonho da árvore
Anos depois, Nabucodonosor teve outro sonho, o de uma grande árvore que era cortada, e chamou Daniel, a quem conhecia como homem em quem estava o espírito dos deuses santos (Dn 4.8-9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Ao entender o sentido do sonho, Daniel ficou perplexo por algum tempo e disse ao rei que desejaria que aquele sonho fosse para os seus inimigos (Dn 4.19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Explicou que a árvore era o próprio rei, que seria afastado do convívio humano até reconhecer que o Altíssimo domina sobre os reinos dos homens, e o aconselhou com coragem e delicadeza: que abandonasse os seus pecados praticando a justiça, e as suas iniquidades, mostrando misericórdia aos pobres; talvez assim a sua tranquilidade se prolongasse (Dn 4.20-27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
A escrita na parede
Muitos anos depois, o rei Belsazar ofereceu um grande banquete a mil dos seus nobres e mandou trazer os utensílios de ouro e de prata que haviam sido levados do templo de Jerusalém, para beber neles com as suas mulheres e concubinas, enquanto louvavam os deuses de ouro, de prata, de bronze, de ferro, de madeira e de pedra (Dn 5.1-4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Naquele momento, apareceram dedos de mão humana que escreviam na parede do palácio, e o rei, apavorado, ficou pálido e os seus joelhos batiam um no outro (Dn 5.5-6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Nenhum dos sábios conseguiu ler a escrita. A rainha lembrou-se de Daniel, homem em quem havia o espírito dos deuses santos, e ele foi chamado (Dn 5.7-13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Daniel, já idoso, recusou os presentes oferecidos pelo rei, mas se dispôs a ler a escrita (Dn 5.17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Antes, lembrou a Belsazar como Deus humilhara Nabucodonosor, até que ele reconhecesse o domínio do Altíssimo; e Belsazar, embora soubesse de tudo isso, não humilhara o seu coração, mas se levantara contra o Senhor do céu, profanando os utensílios do seu templo e louvando deuses que não veem nem ouvem, sem glorificar o Deus em cujas mãos estava a sua vida (Dn 5.18-23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). As palavras escritas eram MENE, MENE, TEQUEL e PARSIM: Deus contara os dias do seu reino e lhe pusera fim; ele fora pesado na balança e achado em falta; e o seu reino seria dividido e entregue aos medos e aos persas (Dn 5.25-28 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Belsazar mandou vestir Daniel de púrpura e o proclamou o terceiro em autoridade no reino; naquela mesma noite, Belsazar foi morto, e Dario, o medo, recebeu o reino (Dn 5.29-31 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Por muito tempo, o nome de Belsazar não era conhecido fora da Bíblia, e alguns duvidavam da sua existência. Inscrições babilônicas descobertas no século XIX revelaram que ele era filho de Nabonido, o último rei da Babilônia, e que governava a cidade enquanto o pai estava ausente; isso explica por que ele pôde oferecer a Daniel apenas o terceiro lugar no reino. A Babilônia caiu diante de Ciro, rei da Pérsia, em 539 a.C.
A cova dos leões
O rei Dario organizou o reino em cento e vinte governadores, sob a supervisão de três administradores, entre os quais estava Daniel; e Daniel se destacou tanto, por causa do espírito excelente que havia nele, que o rei planejava colocá-lo sobre todo o reino (Dn 6.1-3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A identidade desse Dario, o medo, é discutida pelos historiadores, que propõem identificá-lo com um governador nomeado por Ciro ou com o próprio Ciro.
Os outros administradores e governadores procuraram um motivo para acusar Daniel na administração do reino, mas não encontraram nenhuma falha, porque ele era fiel e não havia nele erro nem culpa. Concluíram que só poderiam encontrar algo contra ele na lei do seu Deus (Dn 6.4-5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Então convenceram o rei a assinar um decreto: durante trinta dias, quem fizesse um pedido a qualquer deus ou homem, a não ser ao rei, seria lançado na cova dos leões; e, segundo a lei dos medos e dos persas, o decreto não poderia ser revogado (Dn 6.6-9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Quando soube que o decreto fora assinado, Daniel entrou em sua casa, onde havia janelas abertas no quarto de cima, voltadas para Jerusalém, e três vezes por dia se ajoelhava, orava e dava graças diante do seu Deus, como costumava fazer antes (Dn 6.10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Os seus inimigos o encontraram orando e o acusaram ao rei (Dn 6.11-13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O rei ficou muito triste e se esforçou até o pôr do sol para livrá-lo, mas não conseguiu revogar a lei (Dn 6.14-15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Daniel foi lançado na cova dos leões, e o rei lhe disse: o teu Deus, a quem tu serves continuamente, te livrará. Uma pedra foi colocada na entrada da cova, e o rei a selou com o seu anel e com o anel dos seus nobres (Dn 6.16-17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
O rei passou a noite em jejum e sem dormir. Ao amanhecer, foi às pressas até a cova e chamou com voz angustiada: Daniel, servo do Deus vivo, o teu Deus, a quem serves continuamente, pôde livrar-te dos leões? (Dn 6.18-20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Daniel respondeu: o meu Deus enviou o seu anjo e fechou a boca dos leões, e eles não me fizeram mal, porque fui achado inocente diante dele e também diante de ti, ó rei (Dn 6.21-22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Daniel foi tirado da cova sem nenhuma ferida, porque havia confiado no seu Deus (Dn 6.23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Os seus acusadores foram lançados na mesma cova (Dn 6.24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). E o rei escreveu a todos os povos que tremessem diante do Deus de Daniel, porque ele é o Deus vivo, que permanece para sempre, e o seu reino não será destruído (Dn 6.25-27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
As visões dos reinos e do Filho do Homem
A segunda metade do livro registra visões que Daniel recebeu em diferentes momentos da sua vida. No primeiro ano de Belsazar, ele viu quatro grandes animais subindo do mar — um leão com asas de águia, um urso, um leopardo com quatro asas e quatro cabeças e um quarto animal terrível, com dentes de ferro e dez chifres, do meio dos quais surgiu um chifre pequeno e arrogante (Dn 7.1-8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Depois viu tronos sendo colocados e o Ancião de Dias assentado, com vestes brancas como a neve e cabelos como lã pura; o seu trono era de chamas de fogo, milhares e milhares o serviam, o tribunal se assentou e os livros foram abertos (Dn 7.9-10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
E viu, nas visões da noite, alguém como um filho de homem vindo com as nuvens do céu; ele se aproximou do Ancião de Dias e recebeu domínio, glória e reino, para que todos os povos, nações e línguas o servissem; o seu domínio é eterno e não passará, e o seu reino jamais será destruído (Dn 7.13-14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O anjo explicou que os animais representavam reinos, e que os santos do Altíssimo receberiam o reino e o possuiriam para sempre (Dn 7.17-18,27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Em outra visão, de um carneiro e de um bode, o anjo Gabriel explicou que o carneiro representava os reis da Média e da Pérsia, e o bode, o rei da Grécia (Dn 8.20-21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Daniel ficou abatido e doente por alguns dias depois dessa visão (Dn 8.27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
A oração e as setenta semanas
No primeiro ano de Dario, Daniel compreendeu, lendo os livros, que, segundo a palavra do Senhor ao profeta Jeremias, a desolação de Jerusalém duraria setenta anos (Dn 9.2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Jr 25.11-12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Então se voltou para Deus em oração, com jejum, pano de saco e cinza, e confessou os pecados do povo como se fossem seus: pecamos, cometemos iniquidade, agimos com perversidade e nos rebelamos; a ti, Senhor, pertence a justiça, mas a nós, a vergonha (Dn 9.3-7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). E pediu: não apresentamos as nossas súplicas diante de ti confiando na nossa justiça, mas na tua grande misericórdia; Senhor, ouve; Senhor, perdoa (Dn 9.18-19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Enquanto ainda orava, na hora do sacrifício da tarde, o anjo Gabriel veio a ele e disse que ele era muito amado (Dn 9.20-23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Anunciou que setenta semanas estavam determinadas sobre o povo e sobre a cidade santa, para acabar com a transgressão, pôr fim ao pecado, fazer expiação pela iniquidade, trazer a justiça eterna, selar a visão e a profecia e ungir o Santíssimo (Dn 9.24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Falou de um Ungido, um príncipe, que viria e depois seria eliminado e nada teria, e da destruição da cidade e do santuário (Dn 9.25-26 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Essa profecia é uma das mais discutidas da Bíblia: a interpretação cristã tradicional a relaciona à vinda e à morte de Cristo; outros intérpretes a relacionam aos acontecimentos do século II a.C., e há ainda outras leituras.
A última visão e a ressurreição
No terceiro ano de Ciro, rei da Pérsia, depois de três semanas de jejum e luto, Daniel estava à margem do rio Tigre quando viu um homem vestido de linho, com um cinto de ouro puro; o seu corpo era como berilo, o seu rosto como o relâmpago, os seus olhos como tochas de fogo, e a sua voz como o barulho de uma multidão (Dn 10.1-6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Daniel perdeu as forças e caiu com o rosto em terra, mas foi tocado e fortalecido: não tenha medo, homem muito amado; a paz esteja com você; seja forte (Dn 10.8-19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O mensageiro lhe revelou uma longa sequência de conflitos entre os reis do norte e do sul (Dn 11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), que muitos estudiosos identificam com as guerras entre os sucessores de Alexandre, o Grande, até o rei Antíoco IV.
A revelação termina com o anúncio de um tempo de angústia, como nunca houvera, mas também de livramento para o povo de Deus, para todos os que estivessem inscritos no livro (Dn 12.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). E então vem uma das afirmações mais claras do Antigo Testamento sobre a ressurreição: muitos dos que dormem no pó da terra ressuscitarão, uns para a vida eterna, e outros para a vergonha e o desprezo eterno. Os sábios resplandecerão como o brilho do firmamento, e os que conduzem muitos à justiça brilharão como as estrelas, para todo o sempre (Dn 12.2-3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A última palavra dirigida a Daniel foi uma promessa pessoal: quanto a você, siga o seu caminho até o fim; você descansará e, no fim dos dias, se levantará para receber a sua herança (Dn 12.13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
O livro de Daniel e os seus debates
O livro de Daniel é escrito em duas línguas: a maior parte em hebraico e uma parte central em aramaico, a língua internacional da época (Dn 2.4–7.28 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A tradição judaica e cristã atribui o livro a Daniel, no século VI a.C.; muitos estudiosos modernos entendem que a sua forma final foi composta no século II a.C., durante a perseguição de Antíoco IV, por causa da riqueza de detalhes do capítulo 11. Fragmentos de vários manuscritos de Daniel foram encontrados entre os manuscritos do mar Morto, e Jesus se referiu a ele como "o profeta Daniel" (Mt 24.15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). As versões gregas do livro incluem relatos adicionais, como as histórias de Susana e de Bel e o Dragão, que fazem parte dos livros deuterocanônicos da tradição católica.
O profeta Ezequiel, contemporâneo de Daniel, menciona um Daniel ao lado de Noé e de Jó como exemplo de justiça (Ez 14.14,20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e de sabedoria (Ez 28.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Muitos intérpretes entendem que se trata do mesmo Daniel, já famoso na Babilônia; outros pensam que Ezequiel se refere a um antigo herói conhecido na tradição do Oriente Próximo.
O fim da sua vida
Daniel viveu todo o período do exílio e ainda estava vivo no terceiro ano de Ciro, por volta de 536 a.C. (Dn 10.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), quando os primeiros exilados já haviam voltado para Jerusalém. Teria então cerca de oitenta e cinco anos. A Bíblia não registra a sua morte. Uma antiga tradição localiza o seu túmulo em Susa, a antiga capital persa, na atual cidade de Shush, no Irã.
Fé e caráter
Daniel é um dos poucos personagens bíblicos de quem não se registra nenhum pecado específico; os seus próprios inimigos não encontraram nele culpa alguma (Dn 6.4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Ao mesmo tempo, confessou humildemente os pecados do seu povo como se fossem também seus (Dn 9.5,20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Foi um homem de oração constante (Dn 2.18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Dn 6.10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Dn 9.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), de coragem diante de reis poderosos (Dn 4.27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Dn 5.22-23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), de integridade num ambiente estrangeiro e hostil (Dn 1.8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e de humildade, sempre atribuindo a Deus a sabedoria que recebia (Dn 2.27-30 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Serviu com fidelidade a vários reis pagãos durante cerca de setenta anos, sem abrir mão da sua fé. Três vezes foi chamado de homem muito amado por Deus (Dn 9.23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Dn 10.11,19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Legado
Daniel se tornou um modelo de fidelidade a Deus no exílio e num mundo hostil. A Carta aos Hebreus o inclui entre os que, pela fé, fecharam a boca de leões (Hb 11.33 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). As imagens do seu livro — os reinos representados por animais, o Ancião de Dias, o Filho do Homem, os livros abertos — reaparecem em grande parte no Apocalipse. E Jesus citou as suas palavras ao falar dos últimos tempos (Mt 24.15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Daniel não deve ser confundido com outros homens do mesmo nome, como um filho de Davi (1Cr 3.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e um sacerdote dos dias de Esdras (Ed 8.2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Conexão com Cristo
Daniel viu alguém como um Filho do Homem vindo com as nuvens do céu, que recebeu do Ancião de Dias um domínio eterno e um reino que não será destruído (Dn 7.13-14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). "Filho do Homem" foi o título que Jesus mais usou para falar de si mesmo. Diante do Sinédrio, quando o sumo sacerdote lhe perguntou se ele era o Cristo, o Filho do Deus Bendito, Jesus respondeu: eu sou; e vereis o Filho do Homem assentado à direita do Todo-Poderoso e vindo com as nuvens do céu — e o sumo sacerdote rasgou as suas vestes (Mc 14.61-63 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Depois da ressurreição, Jesus declarou que toda a autoridade lhe fora dada no céu e na terra (Mt 28.18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e no Apocalipse João o viu como alguém semelhante a um filho de homem, com cabelos brancos como a lã — a mesma descrição do Ancião de Dias (Ap 1.13-14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Dn 7.9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
A história de Daniel na cova dos leões oferece, com moderação, paralelos marcantes com a paixão de Jesus. Daniel foi acusado por homens movidos pela inveja, que não encontraram nele culpa alguma; Jesus foi entregue por inveja, e Pilatos não achou nele crime algum (Dn 6.4-5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Mt 27.18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Jo 19.4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O rei Dario se esforçou para livrar Daniel, mas ficou preso à própria lei; Pilatos procurou soltar Jesus, mas cedeu (Dn 6.14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Jo 19.12-16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Uma pedra foi colocada na entrada da cova e selada; uma pedra foi rolada sobre o túmulo de Jesus e selada (Dn 6.17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Mt 27.66 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). E, de madrugada, alguém foi às pressas até a cova e encontrou vivo aquele que fora condenado; de madrugada, as mulheres foram ao túmulo e o encontraram vazio, porque Jesus ressuscitara (Dn 6.19-22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Mt 28.1-6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Daniel foi livrado da morte; Cristo venceu a própria morte.
Na profecia das setenta semanas, Gabriel anunciou um tempo determinado para pôr fim ao pecado, fazer expiação pela iniquidade, trazer a justiça eterna e ungir o Santíssimo, e falou de um Ungido que seria eliminado (Dn 9.24-26 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Desde os primeiros séculos, muitos intérpretes cristãos viram nessa palavra o anúncio da vinda e da morte do Messias. O Novo Testamento afirma que, quando chegou a plenitude dos tempos, Deus enviou o seu Filho (Gl 4.4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e que Cristo apareceu uma vez por todas para aniquilar o pecado pelo sacrifício de si mesmo (Hb 9.26 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Jesus começou a sua pregação dizendo que o tempo estava cumprido (Mc 1.15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Por fim, Daniel anunciou que muitos dos que dormem no pó da terra ressuscitariam, uns para a vida eterna e outros para a vergonha eterna (Dn 12.2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Jesus retomou essas palavras ao afirmar que vem a hora em que todos os que estão nos túmulos ouvirão a sua voz e sairão: os que fizeram o bem, para a ressurreição da vida, e os que fizeram o mal, para a ressurreição do juízo (Jo 5.28-29 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). E a promessa de que os sábios brilhariam como o firmamento (Dn 12.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) ecoa na palavra de Jesus: os justos resplandecerão como o sol no reino do seu Pai (Mt 13.43 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A promessa final a Daniel — que ele se levantaria para receber a sua herança no fim dos dias (Dn 12.13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) — encontra o seu fundamento na ressurreição de Cristo, as primícias dos que dormem (1Co 15.20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
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