Salmos · 19 de 66 · Antigo Testamento
Salmos — Capítulo 136
Título do capítulo: O amor leal que não se cansa
Gênero literário: Poesia/Salmo (hino de ação de graças em forma de ladainha, com refrão em todos os versos; recitação litúrgica alternada da criação, do Êxodo e da conquista, chamada pela tradição judaica de Grande Hallel)
Número de versículos: 26
Nota de precisão: a numeração segue a tradição das Bíblias em português. O salmo não tem inscrição, de modo que, no hebraico impresso, os números coincidem com os nossos; na antiga tradução grega, que junta os Salmos 9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e 10, ele é o salmo cento e trinta e cinco. O refrão, que aparece nos 26 versículos, é descrito e comentado, mas não transcrito: ele é apresentado pela forma hebraica transliterada, ki le'olam ḥasdo, e pelo sentido. O nome de Grande Hallel é o mais comum na tradição rabínica para este salmo, mas as fontes antigas discutem a extensão do conjunto, e o estudo apresenta isso como tal.
🏛️ 1. Contexto Histórico e Cultural
O Salmo 136 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) é o único do Saltério em que cada verso termina com o mesmo refrão. Vinte e seis vezes a primeira metade do verso diz alguma coisa sobre Deus ou sobre o que ele fez, e vinte e seis vezes a segunda metade responde com as mesmas quatro palavras hebraicas: ki le'olam ḥasdo, porque o seu ḥesed é para sempre. A forma é a de uma ladainha. Tudo indica que uma voz, talvez a de um levita, entoava a primeira parte, e a assembleia respondia com o refrão, como numa oração em coro.
O livro das Crônicas confirma o uso litúrgico da fórmula. Quando Davi organiza o serviço diante da arca, nomeia Hemã e Jedutum para dar graças ao Senhor com essas mesmas palavras (1Cr 16.41 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Na dedicação do templo de Salomão, a glória enche a casa enquanto os cantores repetem a confissão, e o povo, prostrado, a repete com eles (2Cr 5.13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 2Cr 7.3, 6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O rei Josafá põe cantores à frente do exército, e a vitória começa enquanto eles cantam o refrão (2Cr 20.21-22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Quando os alicerces do segundo templo são lançados, sacerdotes e levitas cantam em alternância a bondade do Senhor e o seu amor leal sobre Israel (Ed 3.10-11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Jeremias anuncia que a fórmula voltará a soar nas ruas de Jerusalém depois da desolação (Jr 33.11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Outros salmos começam com ela (Sl 106.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Sl 107.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Sl 118.1-4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O Salmo 136 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) é a forma mais desenvolvida desse canto.
A tradição judaica chama este salmo de Grande Hallel. O Talmude babilônico, no tratado sobre a Páscoa, registra uma discussão sobre a extensão desse Hallel; a opinião mais seguida o identifica com o Salmo 136 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), e outras incluem o Salmo 135 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) ou os cânticos de peregrinação. Segundo o costume conhecido da sinagoga, o salmo é recitado nas orações da manhã do sábado e das festas, e algumas tradições o cantam também na noite da Páscoa. O nome Grande Hallel o distingue do Hallel egípcio (Sl 113–118 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), cantado nas festas de peregrinação.
O salmo forma um par com o Salmo 135 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). Os dois contam a criação, as pragas do Egito e a vitória sobre Seom e Ogue, e os versos sobre a conquista são quase iguais (Sl 135.10-12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Sl 136.17-22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Mas o tom é outro: o 135 chama ao louvor e satiriza os ídolos; o 136 agradece, verso após verso, sem polêmica nenhuma, ocupado só em contar.
O salmo não tem autor nem data declarados. O título divino do último verso, o Deus dos céus, é frequente nos livros do período persa, como Esdras, Neemias e Daniel (Ed 1.2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Ne 1.4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Dn 2.18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e muitos estudiosos situam a composição depois do exílio. O v. 23, que fala de uma humilhação da qual Deus se lembrou, poderia aludir ao cativeiro na Babilônia ou, mais em geral, às opressões do tempo dos juízes; o texto não especifica. Como acontece com muitos salmos litúrgicos, a fórmula é antiga e a forma final pode ser mais recente.
A sequência do salmo acompanha a ordem dos primeiros livros da Bíblia. Começa com a criação, segundo a ordem de Gênesis 1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) (céus, terra separada das águas, luminares), passa à última praga e à saída do Egito (Êxodo), à travessia do mar, ao deserto (Números) e às vitórias na Transjordânia (Números e Deuteronômio), até a entrega da terra (Josué). É um resumo da história da salvação em forma de oração, um credo cantado. A curiosidade de que os 26 versículos correspondem ao valor numérico das letras do nome divino em hebraico é observada por alguns intérpretes, mas o texto não a indica, e ela não deve pesar na interpretação.
📜 2. Resumo Narrativo / Conteúdo do Capítulo
O salmo abre com um tríplice chamado à ação de graças: ao Senhor, porque é bom (v. 1), ao Deus dos deuses (v. 2) e ao Senhor dos senhores (v. 3). Cada chamado recebe a mesma resposta: o amor leal de Deus não tem fim.
Vem então a criação. O Senhor é o único que realiza grandes maravilhas (v. 4). Deu forma aos céus com inteligência (v. 5) e firmou a terra acima das águas (v. 6). Acendeu os grandes luminares (v. 7), entregando ao sol o domínio das horas de claridade (v. 8) e à lua e às estrelas o das horas escuras (v. 9).
A história começa no Egito. O golpe sobre os primogênitos egípcios (v. 10) abriu a saída de Israel (v. 11), feita com toda a força do poder divino (v. 12). O mar foi partido (v. 13), o povo atravessou por dentro dele (v. 14), e o faraó com as suas tropas foi lançado às águas (v. 15). Depois, Deus guiou Israel através do deserto (v. 16).
Depois vieram as vitórias sobre reis grandes e poderosos (vv. 17-18), dos quais dois são nomeados: Seom, dos amorreus (v. 19), e Ogue, de Basã (v. 20). As terras deles passaram a Israel, o servo do Senhor, como herança recebida (vv. 21-22).
O salmo passa então da história antiga para a primeira pessoa do plural. Quando estávamos por baixo, o Senhor não nos esqueceu (v. 23) e nos libertou à força dos que nos oprimiam (v. 24). É ele quem sustenta com alimento todos os seres vivos (v. 25). E o salmo termina chamando à ação de graças ao Deus dos céus (v. 26). Depois de cada uma dessas frases, a assembleia repete o refrão.
🔍 3. Análise por Seções (Perícopes)
Versículos 1-3 — Três títulos para um só Senhor
O salmo abre com o imperativo hodu, do verbo yadah, que significa dar graças e também confessar, reconhecer publicamente. A ação de graças bíblica é sempre testemunho: quem agradece declara diante dos outros quem Deus é e o que fez. O primeiro motivo é o mais simples e o mais profundo: o Senhor é tov, bom.
Os vv. 2-3 acrescentam dois títulos de majestade, construídos com o superlativo hebraico, que repete a palavra para indicar o grau máximo: 'Elohei ha'elohim, o Deus dos deuses, e 'Adonei ha'adonim, o Senhor dos senhores. Os dois títulos vêm juntos em Deuteronômio, que os une à justiça imparcial de Deus e ao seu cuidado pelo órfão, pela viúva e pelo estrangeiro (Dt 10.17-18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A abertura combina, assim, bondade e soberania: o Deus que está acima de todo poder é bom.
O refrão aparece já nos três primeiros versos e estabelece o tom do salmo inteiro. A palavra ḥesed é uma das mais ricas do Antigo Testamento. Designa o amor que nasce de um compromisso e permanece fiel a ele: lealdade, bondade, misericórdia, fidelidade à aliança, tudo junto. Não é um sentimento passageiro, mas uma disposição que age; na Bíblia, ḥesed se faz, se mostra, se guarda. Na revelação do Sinai, quando Deus proclama o próprio nome, ele se descreve como grande em ḥesed e fidelidade, e como quem guarda o ḥesed por milhares de gerações (Êx 34.6-7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O refrão do salmo acrescenta le'olam, expressão que aponta para um tempo sem limite à vista, até onde a vista alcança e além dela. A confissão é que esse amor de aliança não se esgota.
Versículos 4-9 — A criação como primeiro ato de amor leal
O v. 4 funciona como título para tudo o que segue: o Senhor é o que faz nifla'ot gedolot, grandes maravilhas, levaddo, sozinho. A palavra nifla'ot designa obras que ultrapassam a compreensão e o poder humanos, como as do Êxodo (Êx 3.20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Êx 15.11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A palavra levaddo, só ele, exclui qualquer colaborador: nenhum deus das nações participou da criação ou da libertação (Sl 72.18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Sl 86.10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Os vv. 5-9 seguem a ordem de Gênesis 1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). O Senhor fez os céus bitvunah, com entendimento, com inteligência. A mesma ideia aparece em Provérbios, que atribui à sabedoria e ao entendimento de Deus a fundação da terra e dos céus (Pv 3.19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e em Jeremias (Jr 10.12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O mundo não é fruto do acaso nem de uma luta entre deuses, como em mitos antigos do Oriente, mas de uma mente sábia.
O v. 6 descreve a terra estendida sobre as águas. O verbo raqa', estender batendo, como se bate o metal para fazer uma lâmina, é parente de raqia', a palavra do firmamento em Gênesis (Gn 1.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A imagem da terra firmada sobre as águas aparece também em outros salmos (Sl 24.2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e expressa a vitória de Deus sobre o caos: ele pôs limite às águas e fez surgir um lugar seguro para a vida.
Os vv. 7-9 dedicam três versos aos 'orim gedolim, os grandes luminares. O sol é feito lememshelet bayyom, para o governo do dia, e a lua e as estrelas para o governo da noite. O vocabulário é o de Gênesis (Gn 1.14-18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Num mundo em que o sol e a lua eram adorados como divindades, Israel os confessa como criaturas, lâmpadas postas no céu para servir à vida. O seu governo é delegado e limitado: governam o dia e a noite, não os destinos humanos.
O detalhe mais notável desta estrofe é o refrão. Depois de cada ato da criação, a assembleia diz que o ḥesed do Senhor é para sempre. A criação é lida, assim, como o primeiro capítulo do amor leal de Deus. Antes de libertar Israel do Egito, Deus já se mostrava fiel ao fazer um mundo bom e habitável. O salmo une o que muitos separam: a criação e a aliança, a natureza e a graça, a ordem do cosmo e a história de um povo. Para a fé bíblica, o Deus que acende o sol cada manhã é o mesmo que fez aliança com Abraão.
Versículos 10-16 — Do Egito ao deserto: o braço que liberta e conduz
A história começa com o golpe mais duro: o Senhor feriu o Egito bivkhoreihem, nos seus primogênitos (v. 10; Êx 12.29 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O salmo não suaviza o fato, mas também não se demora nele. O verso seguinte já diz o propósito: Deus tirou Israel do meio deles (v. 11). A libertação de um povo escravizado exigiu o juízo sobre o opressor.
O v. 12 descreve a forma da libertação com uma fórmula de Deuteronômio: beyad ḥazaqah uvizroa' netuyah, com mão forte e braço estendido (Dt 4.34 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Dt 5.15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Dt 26.8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A mão e o braço são imagens do poder de Deus em ação, e o braço estendido sugere tanto a força de quem golpeia como o gesto de quem protege e conduz.
O v. 13 é um dos versos mais vivos do salmo. O Senhor gozer yam-suf ligzarim, cortou o mar dos Juncos em pedaços, em partes. O nome yam suf, o mar dos Juncos, é o nome hebraico do mar que a tradição chama de Vermelho; a sua localização exata é discutida pelos estudiosos. A palavra gezarim, partes, pedaços, é rara: reaparece em Gênesis para as metades dos animais cortados na aliança com Abraão, entre as quais passa a chama da presença de Deus (Gn 15.17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Alguns intérpretes veem na coincidência uma alusão intencional: Israel passa entre as partes do mar como a presença de Deus passou entre as partes da aliança, e a travessia seria o cumprimento daquele juramento. A aproximação é sugestiva, mas não pode ser provada.
O v. 14 descreve a travessia: Deus fez Israel passar betokho, pelo meio dele. E o v. 15 conta o destino do perseguidor com um verbo forte, ni'er, sacudir, como quem sacode a poeira de uma roupa. É o mesmo verbo usado na narrativa do Êxodo para o momento em que o Senhor lança os egípcios no meio do mar (Êx 14.27 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O império mais poderoso do tempo é sacudido como pó.
O v. 16 resume em um só verso os quarenta anos no deserto: Deus molikh, conduziu o seu povo. O salmo não menciona as murmurações, o bezerro de ouro nem as rebeliões, que outros salmos contam com franqueza (Sl 78.17-41 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Sl 106.13-33 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Aqui o foco é só a fidelidade de Deus. Ele conduziu, com a coluna de nuvem e de fogo, com o maná e a água da rocha, um povo que muitas vezes não merecia ser conduzido. O refrão, depois desse verso, tem um peso especial: o amor leal que guiou o povo pelo deserto não dependia da fidelidade do povo.
Versículos 17-22 — Os reis vencidos e a herança do servo
A estrofe da conquista é construída em pares. Os vv. 17-18 falam de reis em geral: Deus feriu melakhim gedolim, grandes reis, e matou melakhim 'addirim, reis majestosos, ilustres. Os vv. 19-20 dão nome a dois deles: Seom, rei dos amorreus, e Ogue, rei de Basã, os soberanos da Transjordânia vencidos por Israel antes da travessia do Jordão (Nm 21.21-35 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Dt 2.26–3.11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Os vv. 21-22 dizem o resultado: a terra deles foi dada como naḥalah, herança, herança a Israel, 'avdo, o seu servo.
A repetição é típica da poesia litúrgica e lembra o Salmo 135 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), que diz quase o mesmo em três versos (Sl 135.10-12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Aqui, porém, o refrão entre cada linha alonga o relato e o transforma em celebração. Cada rei vencido e cada pedaço de terra recebido é mais uma prova do ḥesed.
Dois detalhes merecem atenção. O primeiro é a palavra herança, repetida nos vv. 21-22: Israel não tomou a terra por direito próprio, recebeu-a como um filho recebe o que o pai lhe deixa. O segundo é o título que Israel recebe no v. 22: 'avdo, o seu servo, no singular. O povo inteiro é visto como um só servo do Senhor, linguagem que Isaías desenvolverá nos cânticos do Servo (Is 41.8-9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Is 44.1-2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Is 49.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A herança não foi dada a uma potência militar, mas a um servo.
Versículos 23-25 — O Deus que se lembrou de nós e alimenta toda carne
Até aqui o salmo falou do passado distante, na terceira pessoa. No v. 23 a voz muda para o plural da primeira pessoa: shebeshiflenu zakhar lanu, ele se lembrou de nós na nossa humilhação. A palavra shefel, baixeza, condição rebaixada, é rara no Antigo Testamento. O texto não diz qual humilhação; pode ser a opressão no Egito, os tempos dos juízes, o exílio na Babilônia ou todas elas juntas. A assembleia que canta o salmo se inclui na história: o Deus que agiu pelos pais agiu também por nós.
O verbo zakhar, lembrar, é um verbo de aliança. Quando Deus se lembra, não está recuperando uma informação esquecida; está agindo de acordo com o compromisso assumido. Deus se lembrou de Noé e as águas baixaram (Gn 8.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); lembrou-se da aliança com Abraão, Isaque e Jacó e desceu para libertar Israel (Êx 2.24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); lembrou-se de Ana e ela concebeu (1Sm 1.19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). No salmo, a lembrança de Deus é a resposta do ḥesed à humilhação do povo.
O v. 24 completa: Deus wayyifreqenu, nos arrancou dos nossos adversários. O verbo paraq tem o sentido de arrancar com força, soltar, quebrar um jugo, e às vezes é usado para o resgate de quem foi capturado. É o gesto de quem tira a presa da boca do predador.
O v. 25 amplia de repente o horizonte: o Senhor noten leḥem lekhol-basar, dá pão, alimento, a toda carne. A expressão kol-basar, toda carne, inclui todos os seres humanos e também os animais. O Deus que fez aliança com Israel é o mesmo que alimenta o mundo inteiro (Sl 104.27-28 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Sl 145.15-16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Sl 147.9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Depois de falar de reis vencidos e de inimigos, o salmo termina com a imagem mais doméstica possível: a mesa posta. O ḥesed de Deus não se mostra só nos grandes acontecimentos da história, mas no pão de cada dia, dado também a quem não o conhece.
Versículo 26 — Ao Deus dos céus
O salmo termina como começou, com o imperativo hodu, mas com um título novo: 'El hashamayim, o Deus dos céus. É a única vez em que esse título aparece no Saltério. A expressão é comum nos livros do período persa, em que os judeus falavam do seu Deus aos reis estrangeiros (Ed 1.2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Ne 1.4-5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Ne 2.4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Dn 2.18-19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e combina com a amplitude do v. 25: o Deus de Israel não é uma divindade regional, é o Senhor dos céus, que alimenta toda a terra. O último refrão fecha a ladainha, e o salmo termina com a mesma confissão que repetiu vinte e seis vezes.
Vista no conjunto, a estrutura é clara. Uma moldura de ação de graças (vv. 1-3 e v. 26) envolve quatro movimentos: a criação (vv. 4-9), o Êxodo e o deserto (vv. 10-16), a conquista (vv. 17-22) e a aplicação ao presente (vv. 23-25). O paralelismo é sobretudo sintético, cada verso acrescentando um passo, e a repetição do refrão impõe um ritmo de respiração: a voz conta, o povo responde. A forma não é monótona; ela ensina. Quem repete vinte e seis vezes que o amor de Deus não acaba aprende a ler cada acontecimento da vida à luz dessa certeza.
✨ 4. Versículos-Chave
Sl 136.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O chamado à ação de graças pelo Senhor bom, cujo ḥesed é para sempre. É o verso que dá nome ao salmo e resume toda a fé de Israel numa linha. Aparece em momentos decisivos da história do povo: na chegada da arca a Jerusalém, na dedicação do templo, nas batalhas e nas reconstruções (1Cr 16.34 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 2Cr 7.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Ed 3.11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Para o cristão, é a confissão de que o amor fiel de Deus, revelado plenamente em Cristo, é o fundamento de toda gratidão.
Sl 136.5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O Senhor fez os céus com entendimento. O verso afirma a racionalidade e a sabedoria da criação. O Novo Testamento identifica essa sabedoria criadora com o Filho, por meio de quem tudo foi feito (Jo 1.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Cl 1.16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Hb 1.2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e que se tornou para nós sabedoria da parte de Deus (1Co 1.24, 30 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Sl 136.23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — A lembrança de Deus no tempo do abatimento. É o verso em que o salmo deixa de falar de um passado distante e passa a falar de nós. Maria, no seu cântico, celebra o Deus que voltou os olhos para a pequenez dela e que veio em auxílio de Israel, o seu servo, sem esquecer a misericórdia prometida (Lc 1.48, 54 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Segundo vários estudiosos, a antiga tradução grega deste verso emprega o mesmo termo para humilhação que Lucas usa no cântico de Maria.
Sl 136.25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O Senhor dá alimento a toda carne. O verso estende a misericórdia de Deus à criação inteira e recorda que o pão de cada dia é dom. Jesus ensinou os discípulos a pedi-lo ao Pai (Mt 6.11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), alimentou as multidões no deserto (Mc 6.34-44 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e se apresentou como o alimento vindo de Deus que dá vida à humanidade (Jo 6.32-35, 51 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
⛪ 5. Temas Teológicos Centrais
O ḥesed de Deus como chave de toda a história. O salmo lê todos os acontecimentos, da criação do sol à vitória sobre Ogue e ao pão sobre a mesa, como manifestações do mesmo amor leal. Não há um evento neutro; tudo é contado como prova de que Deus é fiel. Essa leitura não é ingênua: o salmo conhece a humilhação (v. 23) e os inimigos (v. 24). Mas, para ele, a última palavra sobre a história é o ḥesed. Paulo, no Novo Testamento, faz uma confissão semelhante: depois de passar em revista as aflições, as ameaças e os poderes deste mundo e do outro, conclui que nada disso é capaz de arrancar os que estão em Cristo do amor de Deus (Rm 8.35-39 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
A criação e a redenção como obra de um só Deus. O salmo passa da criação ao Êxodo sem mudar de refrão. O Deus que fez os céus é o que dividiu o mar; o que acendeu o sol é o que conduziu o povo pelo deserto. Essa unidade é fundamental para a fé bíblica e se cumpre em Cristo, que é ao mesmo tempo o agente da criação e o redentor (Cl 1.15-20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A salvação não é uma fuga do mundo criado, mas a sua restauração por aquele que o fez.
A memória como forma de adoração. O salmo é um exercício de memória. A assembleia lembra o que Deus fez, e, no v. 23, descobre que Deus também se lembrou dela. A memória humana responde à memória divina. Na Ceia, Jesus deu aos discípulos um memorial semelhante: o pão e o cálice, para que os seus os recebessem lembrando-se dele (Lc 22.19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 1Co 11.24-26 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A Igreja, como Israel, adora lembrando.
O cuidado de Deus pelos humildes e por toda criatura. Os dois últimos movimentos do salmo vão do particular ao universal: Deus se lembrou de nós na humilhação e dá alimento a toda carne. O Deus que derruba reis majestosos (vv. 17-18) se inclina para os humilhados (v. 23). Esse movimento de inversão atravessa a Bíblia e encontra no cântico de Maria a sua expressão mais densa (Lc 1.51-53 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
✝️ 6. Visão Cristocêntrica — Cristo neste Capítulo
6.1 — A Grande Narrativa: onde este capítulo se encontra no arco redentor?
O Salmo 136 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) percorre, em poucos versos, quase todo o arco da história bíblica. Começa na Criação (vv. 4-9), com o Deus que fez os céus com entendimento e pôs o sol e a lua no seu lugar. Passa pela Redenção em andamento do Êxodo, do deserto e da conquista (vv. 10-22). Toca a Queda de modo indireto, na humilhação e nos adversários (vv. 23-24), sinais de um mundo em que o povo de Deus ainda sofre. E aponta, sem nomeá-la, para a Redenção consumada, porque a confissão de que o amor de Deus não tem fim pede um cumprimento que vá além de qualquer libertação parcial. O horizonte é a Nova Criação, quando a cidade de Deus dispensará o sol e a lua, iluminada pela glória divina e pelo Cordeiro (Ap 21.23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e a árvore da vida dará fruto ao povo de Deus (Ap 22.2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
6.2 — Tipologias: o Êxodo, o deserto e a herança
O Êxodo é o grande tipo da salvação em Cristo. O próprio Novo Testamento estabelece a ligação. Na transfiguração, Moisés e Elias falam com Jesus sobre o êxodo que ele iria cumprir em Jerusalém (Lc 9.31 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Paulo relê a nuvem, o mar, o maná e a água da rocha como figuras que já falavam de Cristo, a quem identifica com a rocha que acompanhava o povo (1Co 10.1-4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Jesus morre na Páscoa, como o cordeiro cujo sangue protegeu Israel na noite em que os primogênitos do Egito foram feridos (v. 10; 1Co 5.7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O mar dividido do v. 13 e a travessia do v. 14 prefiguram a passagem da morte para a vida em Cristo, e o faraó sacudido no mar do v. 15 prefigura a derrota dos poderes que mantinham a humanidade cativa (Cl 2.15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
O deserto do v. 16 também tem antítipo. Israel foi conduzido por Deus quarenta anos; Jesus foi conduzido pelo Espírito ao deserto e ali, em quarenta dias, venceu as tentações em que Israel caíra, respondendo com palavras de Deuteronômio (Mt 4.1-11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Ele é o Israel fiel, o Filho que obedece onde o povo desobedeceu. E é também o pastor que conduz o seu rebanho, que conhece cada ovelha e caminha adiante do rebanho (Jo 10.3-4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
A herança dos vv. 21-22 aponta para a herança que Cristo conquista para os seus. Não é mais uma faixa de terra a leste ou a oeste do Jordão, mas uma herança que não se estraga nem murcha, guardada por Deus para os seus (1Pe 1.4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e, no fim, a nova terra (Ap 21.1-7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). E o servo a quem a herança é dada (v. 22) encontra no Servo do Senhor de Isaías, que o Novo Testamento identifica com Jesus (Mt 12.17-21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); At 3.13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), aquele que a recebe primeiro e a reparte com os seus (Rm 8.17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
6.3 — Promessas: o Deus que se lembra
O Salmo 136 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) não contém uma profecia messiânica explícita, e o Novo Testamento não o cita diretamente. Mas o v. 23 descreve um padrão que os Evangelhos veem cumprido em Cristo, e convém distinguir as camadas.
No cumprimento histórico parcial, Deus se lembrou do seu povo muitas vezes: no Egito, nos juízes, na volta do exílio. Cada uma dessas lembranças foi real, mas provisória; o povo voltava a cair em humilhação.
No cumprimento pleno em Cristo, Deus se lembrou da sua aliança de modo definitivo. Os cânticos que abrem o Evangelho de Lucas estão cheios do vocabulário deste salmo. Maria louva o Deus que reparou na condição humilde dela, cuja misericórdia alcança cada geração dos que o temem, que tira os poderosos do alto e levanta os pequenos, que sacia os famintos e que veio em socorro de Israel, o seu servo, fiel ao que prometera a Abraão (Lc 1.48-55 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Zacarias, por sua vez, canta a visita de Deus ao seu povo, em fidelidade à aliança jurada aos pais, para libertá-lo dos que o odiavam (Lc 1.68-75 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Os temas do Salmo 136 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) estão todos ali: a lembrança, a humilhação, os inimigos, os poderosos derrubados, os famintos alimentados, Israel como servo. Lucas não cita o salmo, mas a sua linguagem é a de quem o rezou a vida inteira. No nascimento de Jesus, o ḥesed que o salmo cantou 26 vezes ganhou carne.
No cumprimento escatológico futuro, a lembrança de Deus aguarda o dia em que Deus secará o choro do seu povo e a morte deixará de existir (Ap 21.4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O refrão que diz que o amor de Deus é para sempre será, então, a experiência de quem vive na sua presença sem fim.
6.4 — Cristo, o ḥesed de Deus em pessoa
O Antigo Testamento descreve Deus como grande em ḥesed e fidelidade (Êx 34.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). João, no prólogo do seu Evangelho, diz que a Lei veio por meio de Moisés, mas que o favor e a verdade de Deus vieram em pessoa por meio de Jesus Cristo (Jo 1.17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Muitos estudiosos entendem que João, ao unir esses dois termos, ecoa o par hebraico de Êxodo 34 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba). Se assim for, o que o Salmo 136 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) confessa em 26 versos, João diz numa frase: o amor leal de Deus se tornou uma pessoa.
Lido assim, o salmo inteiro se ilumina. O Deus que fez os céus com entendimento (v. 5) fez o mundo por meio do Filho, que é a sua sabedoria (Jo 1.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 1Co 1.24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Os grandes luminares dos vv. 7-9 apontam para aquele que se apresentou como luz para a humanidade inteira (Jo 8.12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e que Zacarias compara à aurora que vem do alto (Lc 1.78 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O Deus dos deuses e o Senhor dos senhores dos vv. 2-3 tem, no Apocalipse, um rosto inesperado: é o Cordeiro, que vence os reis aliados contra ele e traz os títulos de supremo Senhor e supremo Rei (Ap 17.14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Ap 19.16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O título de Deuteronômio, cantado no salmo, é dado ao Cristo que venceu pela cruz.
Os reis derrubados dos vv. 17-20 encontram eco na vitória de Cristo sobre os principados e potestades, que ele desarmou e venceu à vista de todos por meio da cruz (Cl 2.15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O Deus que se lembrou de nós na humilhação (v. 23) é o Deus que, em Cristo, desceu à nossa humilhação: o Filho, que partilhava a condição de Deus, abriu mão dos seus privilégios e desceu, em obediência, até a morte na cruz (Fp 2.6-8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Deus não apenas se lembrou dos humilhados de longe; ele mesmo se fez humilhado. E o Deus que dá pão a toda carne (v. 25) é o Deus que, em Jesus, multiplicou os pães no deserto e se ofereceu ele mesmo como alimento, dando a própria carne para que o mundo viva (Jo 6.51 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Há ainda a forma do salmo. O refrão é a resposta da assembleia, o seu amém repetido a cada obra de Deus. O Apocalipse dá a Cristo o nome de Amém e o descreve como a testemunha em quem não há falha (Ap 3.14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e Paulo ensina que nele cada promessa de Deus recebe a confirmação, e é por ele que a Igreja responde com o seu amém (2Co 1.20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Cada refrão do Salmo 136 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) é um amém à fidelidade de Deus; Cristo é o Amém de Deus em pessoa.
6.5 — O Evangelho no capítulo
Pregar o Salmo 136 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) cristocentricamente é contar de novo a história da salvação, desta vez até o fim. O salmo conta a criação, o Êxodo, o deserto e a conquista, e a cada passo diz que o amor de Deus não acaba. O pregador cristão pode acrescentar os versos que o salmista não conheceu: Deus mandou o seu Filho ao mundo; ele viveu entre nós, morreu por causa dos nossos pecados, saiu vivo do túmulo no terceiro dia, subiu ao Pai, enviou o Espírito e há de voltar. A cada um desses versos, a mesma resposta: o seu ḥesed é para sempre.
O Evangelho está sobretudo no v. 23. Todos nós estamos, de algum modo, na humilhação: no pecado, na culpa, na fraqueza, na morte. E Deus se lembrou de nós. Não esperou que subíssemos até ele; desceu até nós em Cristo. Arrancou-nos das mãos dos adversários (v. 24), não com espada, mas com a cruz. E agora nos alimenta com o pão que é ele mesmo (v. 25).
A resposta é a do salmo: dar graças. Não uma vez, mas tantas quantas forem as obras de Deus na nossa vida. Quem conhece o amor de Deus em Cristo pode aprender a repetir o refrão em cada circunstância, inclusive nas mais duras, certo de que nada o separará desse amor (Rm 8.38-39 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
🔗 7. Conexões Bíblicas (Teologia Bíblica Canônica)
- Êx 34.6-7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Jo 1.14-17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Deus grande em ḥesed e fidelidade, e o Filho em quem esse amor leal se tornou visível.
- 1Cr 16.34, 41 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 2Cr 5.13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 2Cr 7.3, 6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 2Cr 20.21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Ed 3.10-11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Jr 33.11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — o refrão do amor leal no culto, nas batalhas e nas reconstruções de Israel.
- Sl 106.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Sl 107.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Sl 118.1-4, 29 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — outros salmos que abrem ou fecham com a mesma confissão.
- Dt 10.17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Ap 17.14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Ap 19.16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — o Deus dos deuses e Senhor dos senhores, título dado ao Cordeiro vencedor.
- Gn 1.1-18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Pv 3.19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Jr 10.12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Jo 1.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Cl 1.16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — a criação com entendimento e o Filho por meio de quem tudo foi feito.
- Êx 12.29 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Êx 14.21-31 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Lc 9.31 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 1Co 10.1-4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — as pragas, a travessia do mar e o novo êxodo de Cristo.
- Gn 15.17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — as partes da aliança com Abraão, possivelmente evocadas no mar cortado em partes (v. 13).
- Nm 21.21-35 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Dt 2.26–3.11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Sl 135.10-12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Seom e Ogue na memória de Israel.
- Is 41.8-9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Is 49.3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Mt 12.17-21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Israel como servo do Senhor e o Servo cumprido em Jesus.
- Lc 1.46-55, 68-79 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Fp 2.6-8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — os cânticos de Maria e de Zacarias e o Cristo que desceu à humilhação.
- Sl 104.27-28 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Sl 145.15-16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Mt 6.11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Jo 6.32-35, 51 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — o Deus que alimenta toda criatura e o pão da vida.
- Rm 8.35-39 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 2Co 1.20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Ap 3.14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — o amor de Deus em Cristo do qual nada separa, e o Cristo que é o Amém.
- Na história da Igreja, o salmo foi muito usado na liturgia e na hinologia; entre as suas paráfrases mais conhecidas está a do poeta inglês John Milton, escrita na juventude, que se tornou um hino cantado até hoje em igrejas de língua inglesa.
🌍 8. Aplicação Prática Contemporânea com Fundamento Cristológico
Releia a sua história à luz do refrão. O salmo ensina a ler cada acontecimento como parte de uma história maior, guiada pelo amor fiel de Deus. Isso não significa chamar de bom o que é mau, nem negar a dor; o salmo fala de humilhação e de inimigos. Significa crer que, em Cristo, nenhum capítulo da vida está fora do alcance do ḥesed. Experimente escrever a sua própria ladainha: uma linha para cada obra de Deus na sua vida, desde a criação até hoje, e depois de cada uma, a mesma confissão.
Agradeça pelo que parece comum. O salmo agradece pelo sol, pela lua, pelas estrelas e pelo pão. São coisas que se repetem todos os dias e por isso deixam de ser notadas. A gratidão cristã aprende a ver no comum um dom: o pão sobre a mesa vem do mesmo Deus que dividiu o mar e ressuscitou Jesus. Quem agradece pelo pão, como Jesus fazia antes de reparti-lo (Mc 6.41 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Lc 24.30 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), recebe cada refeição como sinal da bondade do Pai.
Lembre que Deus se lembra de você. Na humilhação, a pior sensação é a de ter sido esquecido. O v. 23 afirma o contrário: Deus se lembrou de nós quando estávamos por baixo. Em Cristo, essa lembrança tem uma prova concreta, porque o Filho desceu à nossa condição e nos tirou dela. Quem atravessa a doença, o luto, a vergonha ou a perda pode orar com este verso, mesmo antes de ver a saída.
Repita a verdade até que ela se torne sua. A repetição do refrão não é um defeito de estilo; é uma pedagogia. A alma esquece depressa e precisa ouvir muitas vezes a mesma verdade. Cantar e orar com repetições bíblicas, como este salmo, é uma forma de enraizar no coração a certeza de que o amor de Deus em Cristo não falha.
Estenda o cuidado a toda criatura. O Deus que dá alimento a toda carne (v. 25) chama o seu povo a participar desse cuidado. A Igreja que agradece pelo pão é chamada a reparti-lo com quem tem fome, como Jesus ensinou e fez (Mt 25.35-40 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
🤔 9. Perguntas para Reflexão e Estudo
- O salmo repete o mesmo refrão em todos os 26 versos. O que essa repetição ensina sobre a oração e sobre a forma como a fé se enraíza no coração?
- A palavra ḥesed reúne as ideias de amor, lealdade e fidelidade à aliança. Em que situações da sua vida você experimentou o amor de Deus como fidelidade, e não apenas como sentimento?
- O salmo trata a criação (vv. 4-9) como manifestação do mesmo amor que libertou Israel do Egito. Como isso muda a maneira de olhar para o mundo natural e para o pão de cada dia?
- Compare o v. 23 com o cântico de Maria (Lc 1.46-55 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Que temas do salmo reaparecem ali? O que isso revela sobre o modo como Deus se lembrou do seu povo em Cristo?
- Se você fosse acrescentar versos ao salmo a partir da vida, morte e ressurreição de Jesus, quais seriam?
- Para meditação e oração: escreva cinco ou seis linhas sobre o que Deus fez na sua vida e, depois de cada uma, repita em oração que o amor leal do Senhor não tem fim. Termine agradecendo pelo pão de hoje e pelo Cristo que se fez pão da vida.
📚 10. Para Aprofundamento
Cristocêntrica / Teologia Bíblica:
- Sidney Greidanus — Preaching Christ from the Old Testament (Eerdmans, 1999)
- Christopher J. H. Wright — Conhecendo Jesus através do Antigo Testamento (Ultimato) / Knowing Jesus Through the Old Testament (IVP, 1992)
- G. K. Beale e D. A. Carson (orgs.) — Commentary on the New Testament Use of the Old Testament (Baker Academic, 2007), sobre o uso do Êxodo e dos salmos em Lucas e em Paulo
- Dietrich Bonhoeffer — Das Gebetbuch der Bibel (1940), sobre os salmos como oração de Cristo com a Igreja
- Nelson Glueck — Hesed in the Bible (Hebrew Union College Press, 1967), estudo clássico sobre a palavra ḥesed
Comentários dos Salmos:
- Derek Kidner — Salmos 73–150 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba): introdução e comentário (Vida Nova, série Cultura Bíblica)
- Leslie C. Allen — Psalms 101–150 (Word Biblical Commentary, 1983; edição revista, 2002)
- Nancy deClaissé-Walford, Rolf A. Jacobson e Beth LaNeel Tanner — The Book of Psalms (NICOT, Eerdmans, 2014)
- Frank-Lothar Hossfeld e Erich Zenger — Psalms 3: A Commentary on Psalms 101–150 (Hermeneia, Fortress, 2011)
- James L. Mays — Psalms (Interpretation, John Knox, 1994)
- Agostinho — Comentário aos Salmos (Paulus, coleção Patrística)
Sabedoria para o Cotidiano
O Salmo 136 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) ensina a contar a vida de um jeito novo: cada acontecimento, do nascer do sol ao pão sobre a mesa, das grandes libertações às pequenas, recebe a mesma resposta, a de que o amor leal de Deus não se esgota. Quando a memória só lembrar das perdas, faça a sua própria ladainha e repita o refrão até que ele desça da boca ao coração. E nos dias de humilhação, lembre-se de que o Deus que se lembrou do seu povo desceu em Cristo até o ponto mais baixo da nossa condição, para que ninguém que confia nele seja esquecido.
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