Salmos · 19 de 66 · Antigo Testamento
Salmos — Capítulo 137
Título do capítulo: As harpas caladas junto aos rios estrangeiros
Gênero literário: Poesia/Salmo (lamento coletivo do exílio, com um juramento de fidelidade a Jerusalém e um final imprecatório contra Edom e Babilônia; o mais claramente datável dos salmos, nascido da memória da deportação para a Babilônia)
Número de versículos: 9
Nota de precisão: a numeração segue a tradição das Bíblias em português. Este salmo não tem inscrição no hebraico, de modo que os números coincidem com os do hebraico impresso; na antiga tradução grega, que junta os Salmos 9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e 10, ele é o salmo cento e trinta e seis, e ali recebe uma inscrição que o liga a Davi, à qual parte dos manuscritos acrescenta o nome de Jeremias — acréscimos tardios que não pertencem ao texto hebraico. Há uma palavra discutida no v. 5 (o que a mão direita deve "esquecer") e outra no v. 8 (se Babilônia é a "devastadora" ou a "que será devastada"); as duas questões são tratadas no lugar próprio. O v. 9 é um dos versos mais difíceis de toda a Escritura; o estudo não o suaviza nem o esconde, e procura lê-lo no lugar que ele ocupa: a boca de vítimas que entregam a Deus o juízo que não podem nem devem executar.
🏛️ 1. Contexto Histórico e Cultural
Poucos salmos deixam ver com tanta nitidez a hora em que nasceram. O Salmo 137 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) fala de rios da Babilônia, de captores que pedem canções, de Edom no dia de Jerusalém e de Babilônia como cidade ainda de pé, à espera do juízo. Tudo isso aponta para o exílio babilônico, a grande ferida do século VI a.C.
A história é contada em 2 Reis e em 2 Crônicas. Depois de uma primeira deportação em 597 a.C., em que o rei Joaquim, a corte e os artesãos foram levados (2Rs 24.10-16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), Nabucodonosor voltou contra Jerusalém quando Zedequias se rebelou. O cerco durou cerca de um ano e meio e terminou em 587 ou 586 a.C., segundo o modo de contar os anos; a fome chegou a extremos que o livro de Lamentações descreve sem disfarce, com crianças desfalecendo nas praças e pedindo pão que ninguém tinha para dar (Lm 2.11-12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 4.4). A cidade foi tomada, os filhos de Zedequias foram mortos diante dos olhos do pai, o templo foi queimado, os muros derrubados, e boa parte da população foi levada para a Babilônia (2Rs 25.1-21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 2Cr 36.17-21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). É preciso guardar essas cenas para ler o fim do salmo: as vozes que falam nele viram os seus próprios pequeninos morrerem.
Os deportados foram assentados em comunidades na Mesopotâmia meridional, uma terra plana cortada pelo Eufrates, pelo Tigre e por uma rede de canais de irrigação. Ezequiel recebeu as suas visões junto ao rio Quebar, que muitos estudiosos identificam com um desses grandes canais, e morou entre os exilados num lugar chamado Tel-Abibe (Ez 1.1-3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 3.15). As águas eram lugar de reunião e talvez de oração: séculos depois, em Filipos, Paulo procurará um lugar de oração à beira de um rio (At 16.13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Os "rios da Babilônia" do v. 1 são, portanto, a paisagem concreta do exílio, e também o seu símbolo: muita água, terra fértil, e nenhuma Sião.
A pergunta da data exata é mais aberta. O verbo do v. 1 está no passado, e o advérbio "ali", repetido nos vv. 1 e 3, olha a Babilônia de certa distância. Por isso muitos estudiosos entendem que o salmo foi composto pouco depois do retorno, iniciado em 538 a.C. com o decreto de Ciro (Ed 1.1-4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), por alguém que se lembrava do exílio já de volta a Jerusalém, talvez diante dos escombros que ainda esperavam reconstrução. Outros o situam nos últimos anos do próprio exílio. Como Babilônia ainda aparece como cidade a ser julgada (v. 8), uma data muito posterior à sua queda é menos provável; mas nada no texto permite precisão maior, e convém não forçá-la.
O salmo não traz autor, nem termos musicais, nem selá. O que traz é a voz de um grupo, um "nós" que se lembra, e de repente um "eu" que jura. Muitos o leem como a memória de levitas cantores, os responsáveis pelos cânticos do templo, que tinham levado consigo os seus instrumentos e se recusavam a tocá-los para entreter os vencedores. É uma hipótese atraente, e combina com o peso que o salmo dá às harpas e às canções; mas é hipótese.
Dois povos aparecem no fim. Edom, descendente de Esaú, irmão de Jacó, era vizinho e parente de Judá (Gn 25.23-30 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Dt 23.7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Os profetas registram com amargura especial o papel de Edom na queda de Jerusalém: ficou olhando, alegrou-se, saqueou, cortou o caminho dos que fugiam e os entregou ao inimigo (Ob 10-14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Ez 25.12-14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 35.5, 15; Lm 4.21-22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A traição de um irmão dói de outro modo. Babilônia, por sua vez, era o império que executou a destruição. E os profetas já tinham anunciado que também ela seria julgada pela violência com que tratou os povos (Is 13–14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Is 47 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Jr 50–51 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Por fim, o salmo está no quinto livro do Saltério, entre os cânticos de peregrinação (Sl 120–134 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), o grande hino do amor leal de Deus (Sl 136 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e a coletânea final atribuída a Davi (Sl 138–145 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Depois de tantas subidas alegres a Sião, ele lembra o tempo em que não havia subida possível, e o Salmo 136 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) acabara de cantar o Deus que se lembrou do seu povo na humilhação (Sl 136.23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O 137 é a humilhação lembrada.
📜 2. Resumo Narrativo / Conteúdo do Capítulo
O salmo começa com uma cena: os exilados sentados à beira dos rios da Babilônia, chorando ao se lembrarem de Sião (v. 1). Nos salgueiros daquela terra, ou nos choupos que crescem junto à água, eles penduraram as suas liras (v. 2). Ali os que os tinham levado cativos e os que os atormentavam pediram canções e alegria, exigindo que cantassem algum dos cânticos de Sião (v. 3). A resposta vem em forma de pergunta: como cantar o cântico do Senhor numa terra estrangeira? (v. 4).
A voz passa então do plural para o singular, e o salmista faz um juramento. Se ele se esquecer de Jerusalém, que a sua mão direita perca a destreza (v. 5); se não se lembrar dela, se não a puser acima da sua maior alegria, que a língua se lhe prenda ao céu da boca (v. 6).
Por fim, o salmo se volta para o juízo. Pede ao Senhor que se lembre dos edomitas no dia da queda de Jerusalém, porque eles gritavam para que a cidade fosse arrasada até os alicerces (v. 7). Dirige-se depois à própria Babilônia, chamada de filha, e declara feliz quem lhe retribuir o que ela fez ao povo de Deus (v. 8), e feliz quem tomar os seus pequeninos e os despedaçar contra a rocha (v. 9). O salmo termina aí, sem retorno ao louvor, sem palavra de consolo: termina no grito.
🔍 3. Análise por Seções (Perícopes)
Versículos 1-2 — Lágrimas junto às águas e as liras penduradas
O salmo abre com três verbos em sequência: sentar, chorar, lembrar. O sentar, yashavnu, é a postura de quem está de luto, como Jó no chão com os amigos em silêncio (Jó 2.13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) ou Neemias ao receber as notícias de Jerusalém (Ne 1.4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O chorar, bakinu, é o de quem perdeu tudo. E o lembrar, bezokhrenu, dá o motivo: não é a saudade de uma terra qualquer, é a lembrança de tsiyyon, Sião, o monte onde o Senhor tinha posto o seu nome e onde estava o templo. Para o israelita, Sião não era apenas a capital; era o lugar onde o céu tocava a terra, onde se subia em festa (Sl 122.1-2 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), de onde vinha a bênção (Sl 128.5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 134.3).
A palavra "ali", sham, abre o salmo e voltará no v. 3. Ela marca a distância: aqueles rios e aquela terra são "lá", o lugar do qual se fala de longe.
O v. 2 traz a imagem que ficou gravada na memória de leitores de muitos séculos: as liras penduradas nas árvores. O instrumento é o kinnor, a lira de cordas usada no culto do templo e associada a Davi (1Sm 16.23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 1Cr 15.16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 25.1). As árvores são 'aravim, palavra tradicionalmente traduzida por salgueiros; muitos botânicos e estudiosos preferem pensar no choupo do Eufrates, árvore comum às margens dos rios mesopotâmicos. A diferença não altera a imagem. Pendurar a lira é deixar de tocá-la, é pôr o canto em suspenso. Os profetas tinham anunciado justamente isso como sinal de juízo: o fim da música e da alegria (Is 24.8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Jr 7.34 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Ez 26.13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O que fora ameaça tornou-se experiência.
Há um contraste silencioso entre a abundância da paisagem e a secura do coração.
Versículos 3-4 — A canção exigida e a pergunta que não se cala
O v. 3 explica por que as liras estão penduradas. Os shovenu, os que nos levaram cativos, e os tolalenu, palavra rara que muitos entendem como "os nossos atormentadores" ou "os que nos saquearam", pedem canções. O pedido é duplo: divre-shir, palavras de canto, e simḥah, alegria. E especificam: algum dos cânticos de Sião, shir tsiyyon. É possível que fosse curiosidade de vencedor, a vontade de ouvir a música exótica dos derrotados; é mais provável que fosse escárnio. Os cânticos de Sião celebravam a cidade inabalável, protegida pelo seu Deus (Sl 46 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 48; 76; 87). Pedir que os exilados cantassem justamente esses cânticos, diante das ruínas da cidade, era zombar da fé deles: onde está agora o vosso Deus? Lamentações registra a mesma zombaria dos passantes diante da cidade arruinada (Lm 2.15-16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
O v. 4 responde com uma pergunta: como cantar o shir YHWH, o cântico do Senhor, em 'admat nekhar, terra estrangeira? A expressão "cântico do Senhor" mostra que, para os exilados, os cânticos de Sião não eram folclore; eram oração e adoração. Cantá-los para divertir os opressores seria profaná-los. Os vencedores podiam levar os corpos, os utensílios do templo e até os instrumentos; não podiam levar o louvor para servir de espetáculo.
A pergunta do v. 4 também tem outra camada. A terra estrangeira era considerada impura, longe do altar, longe do templo (Am 7.17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Os 9.3-4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Como cultuar o Senhor sem Sião? Não é só uma pergunta sobre a música; é a pergunta sobre a presença de Deus fora da terra. O exílio obrigou Israel a descobrir respostas: Ezequiel viu a glória do Senhor junto ao rio Quebar, longe de Jerusalém (Ez 1.1, 28 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); Jeremias escreveu aos deportados que buscassem a paz da cidade onde estavam e orassem por ela (Jr 29.4-7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); Daniel orava três vezes ao dia voltado para Jerusalém (Dn 6.10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O salmo não dá essas respostas; registra a pergunta no seu estado mais cru, e é isso que o torna tão verdadeiro.
Versículos 5-6 — O juramento de não esquecer
De repente, o "nós" vira "eu", e o lamento vira juramento. A forma é a de uma auto-imprecação, comum nos juramentos do mundo bíblico: se eu fizer tal coisa, que me aconteça tal mal (Rt 1.17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 1Sm 3.17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Jó 31.5-40 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O salmista põe em jogo as duas partes do corpo que um músico mais precisa: a mão direita, que toca a lira, e a língua, que canta. Se eu me esquecer de ti, Jerusalém, que eu perca a música.
O v. 5 tem uma questão de texto. O hebraico diz, literalmente, que a mão direita "esqueça", tishkaḥ, sem dizer o quê; o verbo é o mesmo do esquecimento de Jerusalém na primeira metade, e o jogo é intencional: se eu esquecer, que a mão esqueça. Por isso muitas traduções completam com "a sua habilidade". Alguns estudiosos propõem uma pequena mudança de letras que daria o verbo "secar, paralisar"; a ideia final é a mesma: a mão ficaria inútil.
O v. 6 completa com a língua presa ao céu da boca, imagem da mudez (Ez 3.26 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Jó 29.10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e acrescenta a cláusula decisiva: se eu não elevar Jerusalém acima de ro'sh simḥati, literalmente "a cabeça da minha alegria", isto é, a maior das minhas alegrias. Há um eco deliberado do v. 3: os captores queriam simḥah, alegria; o salmista responde que a sua alegria maior está ligada a Jerusalém, e não pode ser oferecida a quem a destruiu.
O juramento mostra o que significa a memória na Bíblia. Lembrar, zakhar, não é apenas guardar uma imagem; é manter-se fiel, deixar que o lembrado governe a vida. Esquecer Jerusalém seria acomodar-se à Babilônia, deixar que a terra estrangeira se tornasse a pátria. É essa a tentação que o salmo recusa.
Versículo 7 — O irmão que gritou contra Jerusalém
O verbo zakhar volta, agora como pedido a Deus. O salmista jurou lembrar-se de Jerusalém; pede ao Senhor que se lembre dos bene 'edom, os filhos de Edom, no yom yerushalayim, o dia de Jerusalém, isto é, o dia da sua queda. Pedir que Deus se lembre, nos salmos, é pedir que ele aja (Sl 74.2, 18, 22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 132.1). E o que deve ser lembrado é o que Edom disse naquele dia: o grito, repetido, 'aru 'aru, que pedia que a cidade fosse desnudada, arrasada até o yesod, o fundamento.
Dirigir a palavra a Deus, e não aos edomitas, é significativo. O salmista não convoca uma expedição; entrega a memória da injustiça ao Juiz. Os profetas tinham feito o mesmo, com mais detalhes: Obadias acusa Edom de ter ficado de lado no dia da calamidade do irmão, de ter-se alegrado e saqueado, de ter barrado a fuga dos sobreviventes (Ob 10-14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); Ezequiel o acusa de ter guardado um ódio antigo e entregado Israel à espada no tempo da sua desgraça (Ez 35.5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Lamentações, escrito sobre os mesmos escombros, termina o seu quarto poema anunciando que o cálice passaria também a Edom (Lm 4.21-22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O v. 7 está, portanto, em plena concordância com a palavra profética: não inventa uma acusação, repete uma que Deus mesmo já pronunciara.
Versículos 8-9 — A filha de Babilônia e a rocha
O salmo se volta agora para Babilônia, chamada bat-bavel, filha de Babilônia, uma personificação poética da cidade, comum nos profetas (Is 47.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Jr 50.42 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 51.33). O adjetivo que a acompanha, hashsheduddah, é discutido. A forma mais comum no hebraico tem sentido passivo, "a que será devastada", isto é, condenada à ruína; algumas tradições antigas e vários estudiosos leem um sentido ativo, "a devastadora". As duas leituras dizem coisas verdadeiras sobre Babilônia: ela devastou, e será devastada. A primeira insiste no veredito já dado por Deus; a segunda, na culpa que o motiva.
Seguem-se, duas vezes, a palavra 'ashre, a mesma que abre o Saltério e que se traduz por "feliz" ou "bem-aventurado" (Sl 1.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O primeiro 'ashre, no v. 8, é dito sobre quem retribuir a Babilônia o gemul, a paga, o tratamento que ela deu a Judá. É a linguagem da justiça retributiva, que a tradição chama de lei do talião, a pena medida pelo dano (Ex 21.23-25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Lv 24.19-20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Dt 19.21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e que, em Israel, não era licença para a vingança privada, mas um princípio de proporção imposto aos juízes. Jeremias usa exatamente essa linguagem contra Babilônia, pedindo que se faça a ela o que ela fez (Jr 50.15, 29 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 51.24, 56).
O segundo 'ashre, no v. 9, é o que fere o leitor. É declarado feliz quem tomar os 'olalim de Babilônia, os seus pequeninos, as crianças de colo, e os despedaçar contra a sela', a rocha. Não há como amaciar o sentido das palavras. É preciso, porém, lê-las no seu mundo, sem transformá-las em algo que elas não são.
Primeiro, a prática descrita era um horror conhecido das guerras antigas. A Escritura a registra como atrocidade de conquistadores: Eliseu chora ao prever que Hazael fará isso em Israel (2Rs 8.12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); Oseias e Naum a descrevem na queda de Samaria e de Tebas (Os 13.16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Na 3.10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Os exilados não a inventaram; muito provavelmente a sofreram. Quando dizem "o que fizeste a nós", o leitor deve lembrar das crianças de Jerusalém.
Segundo, o v. 9 retoma quase literalmente um oráculo de Isaías contra Babilônia, em que se anuncia que os pequeninos dela seriam despedaçados diante dos olhos dos pais quando os medos viessem contra a cidade (Is 13.16-19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O salmista não está imaginando um castigo próprio; está pedindo que se cumpra o que Deus anunciou pelo profeta. A forma da oração é a do talião: a mesma medida que Babilônia usou, voltada contra ela.
Terceiro, o "feliz" não designa o salmista, nem o povo, nem qualquer israelita. Designa o executor que Deus usar. Na história, Babilônia caiu diante de Ciro em 539 a.C., e, segundo as fontes antigas, a cidade foi tomada sem grande destruição; o horror pedido não se cumpriu daquela forma. O que permanece é o princípio: Deus é o Juiz das nações, e a crueldade que um império semeou não fica sem resposta.
Por fim, a sela', a rocha, talvez carregue uma ressonância a mais. Sela era também o nome de uma fortaleza de Edom (2Rs 14.7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Is 16.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e alguns estudiosos sugerem que a palavra amarra o fim do salmo aos dois culpados, Edom e Babilônia. É sugestão possível, não conclusão segura.
Vista no conjunto, a estrutura do salmo é simples e forte. Duas estrofes de lamento no "nós" (vv. 1-4), uma de juramento no "eu" (vv. 5-6), e uma de juízo dirigida a Deus e aos inimigos (vv. 7-9). O verbo lembrar costura tudo: os exilados se lembram de Sião (v. 1), o salmista jura lembrar-se de Jerusalém (vv. 5-6), e pede a Deus que se lembre de Edom (v. 7). Há ainda o jogo entre as duas vozes que pedem: os captores pedem canções (v. 3); o salmista pede justiça (v. 7). E há a palavra "Sião" e "Jerusalém" no centro, cercada pelas duas potências estrangeiras, Babilônia no começo e no fim, Edom no meio do juízo.
✨ 4. Versículos-Chave
Sl 137.4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — A pergunta sobre o louvor em terra estranha. Para os exilados, era a recusa de transformar a adoração em espetáculo para os opressores e, ao mesmo tempo, a dúvida sobre como cultuar longe do templo. A história da Igreja ouviu nela a pergunta de todo cristão que vive num mundo que não é a sua pátria: a primeira carta de Pedro trata os crentes como gente de fora, de passagem, espalhada entre as nações (1Pe 1.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 2.11), e chega a chamar Roma de Babilônia (1Pe 5.13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A resposta do Novo Testamento é que se canta, sim, mesmo em terra estranha: Paulo e Silas louvam a Deus à meia-noite, presos em Filipos (At 16.25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), porque o templo agora é o Cristo e o seu povo, e a presença de Deus não ficou presa a um monte (Jo 4.21-24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Sl 137.5-6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O juramento de não esquecer Jerusalém. É uma das expressões mais intensas de lealdade em toda a Bíblia, e tornou-se, na tradição judaica, uma fórmula de memória: em muitas comunidades, os vv. 5-6 são recitados nos casamentos, para que nem a maior das festas esqueça a ruína de Jerusalém, e o salmo inteiro é dito antes da ação de graças depois das refeições nos dias comuns. Para o cristão, o verso aponta para a cidade que ainda não chegou à sua plenitude: Hebreus diz que os patriarcas procuravam uma pátria superior, no céu, e que o povo de Deus não tem neste mundo uma cidade que dure (Hb 11.13-16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 13.14). O amor à Jerusalém do alto (Gl 4.26 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) é o que impede o crente de se acomodar à Babilônia.
Sl 137.8-9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — O clamor por justiça contra Babilônia, um dos textos mais perturbadores da Escritura. Ele deve ser lido com honestidade: é a oração de vítimas de uma atrocidade, que pedem que Deus aplique ao opressor a medida que o opressor usou, em concordância com o que os profetas tinham anunciado (Is 13.16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Jr 51.24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O Novo Testamento não cita o v. 9, mas o Apocalipse retoma o seu princípio ao anunciar a queda da grande Babilônia, que recebe de volta o que deu, em dobro, e convida o céu e os santos a se alegrarem porque Deus fez justiça (Ap 18.6, 20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O mesmo Novo Testamento ensina que o crente não se vinga: entrega o juízo a Deus e responde ao mal fazendo o bem (Rm 12.17-21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
⛪ 5. Temas Teológicos Centrais
A memória como fidelidade. O verbo zakhar atravessa o salmo. Os exilados se lembram de Sião, o salmista jura não se esquecer de Jerusalém, e pede ao Senhor que se lembre da injustiça. Na Bíblia, a memória não é nostalgia: é o modo de permanecer na aliança. Israel deve lembrar-se do Senhor e do que ele fez (Dt 8.2, 18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e Deus se lembra da sua aliança (Ex 2.24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Sl 136.23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Esse tema culmina na mesa do Senhor, em que Jesus ordena que os seus façam aquilo em memória dele (Lc 22.19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 1Co 11.24-25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A Igreja exilada se lembra de um Cristo crucificado e ressuscitado, e essa memória a impede de esquecer quem ela é.
O exílio e a identidade do povo de Deus. O salmo é o retrato de um povo que perdeu a terra, o rei e o templo, e que precisa decidir se continuará sendo o povo do Senhor. A recusa de cantar para os opressores é uma afirmação de identidade. O Novo Testamento transforma o exílio numa categoria da vida cristã: os crentes são cidadãos dos céus (Fp 3.20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), peregrinos que vivem entre as nações sem pertencer à lógica delas (1Pe 2.11-12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e Babilônia se torna o nome do sistema do mundo que se opõe a Deus (Ap 17–18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O povo de Cristo canta, mas não canta para a Babilônia.
A justiça de Deus e o clamor das vítimas. O fim do salmo é uma oração de vítimas. A Escritura não silencia esse clamor; ela o registra e o dirige a Deus. O sangue de Abel clama da terra (Gn 4.10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), as almas debaixo do altar perguntam até quando o Senhor deixará de fazer justiça (Ap 6.9-10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e Deus se apresenta como aquele a quem pertence a retribuição (Dt 32.35 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O tema bíblico é coerente: o juízo é de Deus, e por isso o homem pode entregá-lo. O salmo não chama ninguém a pegar em armas; chama Deus a lembrar-se.
O talião e os seus limites. A lei do talião, na Bíblia, era um princípio de proporção: a pena não podia passar do dano. O salmo aplica esse princípio à história das nações e pede que Babilônia receba a medida que usou. Jesus, sem anular a justiça de Deus, proíbe aos seus discípulos a retaliação pessoal e os chama a amar os inimigos (Mt 5.38-45 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O juízo final continua de pé (Rm 2.5-6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Ap 20.12-13 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), mas a mão do discípulo já não é a mão que retribui.
✝️ 6. Visão Cristocêntrica — Cristo neste Capítulo
6.1 — A Grande Narrativa: onde este capítulo se encontra no arco redentor?
O Salmo 137 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) pertence à Redenção em andamento, num dos seus momentos mais escuros. O exílio é a consequência da infidelidade de Israel, anunciada desde Moisés (Dt 28.36-37, 64 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e cumprida depois de séculos de advertências proféticas (2Cr 36.15-16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). É uma repetição da Queda: como Adão foi expulso do jardim, Israel é expulso da terra. Mas o exílio não é o fim da história. Os mesmos profetas que o anunciaram prometeram o retorno, uma nova aliança e um novo coração (Jr 31.31-34 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Ez 36.24-28 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O retorno sob Ciro foi real, mas parcial: o povo voltou, e ainda assim continuou esperando o dia em que Deus mesmo voltaria a Sião (Is 40.1-11 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 52.7-10). Esse retorno acontece em Cristo, a Redenção consumada. E a cena final da Bíblia, a Nova Criação, mostra Babilônia caída e a nova Jerusalém descendo do céu, com a música do louvor que não cessa (Ap 18.21–19.8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 21.1-4).
6.2 — Tipologias: o exílio, Sião e Babilônia
O primeiro tipo é o próprio exílio. Israel longe da terra é imagem da humanidade longe de Deus, expulsa da sua presença. O Novo Testamento apresenta a obra de Cristo como o fim desse exílio: Mateus abre o seu Evangelho com uma genealogia que marca a deportação para a Babilônia como um dos grandes marcos da história e a encerra no Cristo (Mt 1.11-12, 17 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Jesus é o Israel fiel que entra no exílio em lugar do seu povo. Na cruz, ele é levado para fora da cidade (Hb 13.12 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e experimenta o abandono, o lugar de máxima distância de Deus (Mt 27.46 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Por ele, os que estavam longe são trazidos para perto (Ef 2.13, 17-19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
O segundo tipo é Sião. A Jerusalém que o salmista jura não esquecer aponta, no Novo Testamento, para a Jerusalém do alto, livre, que é a mãe dos crentes (Gl 4.26 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e para o monte Sião celestial, a cidade do Deus vivo, para onde os crentes já se aproximaram em Cristo (Hb 12.22-24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O amor do exilado pela Jerusalém terrena é preparação para o amor da Igreja pela cidade que Deus prepara.
O terceiro tipo é Babilônia. Do império histórico, o nome passa a designar, no Apocalipse, toda a ordem do mundo que se embriaga de poder, comércio, idolatria e sangue dos santos (Ap 17.5-6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 18.24). O Apocalipse retoma vários elementos deste salmo e dos oráculos proféticos contra Babilônia: o juízo que lhe dá o que ela deu (Ap 18.6 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), a alegria do céu pela sua queda (Ap 18.20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e o silêncio final da música dos harpistas, que nunca mais será ouvida nela (Ap 18.22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). As harpas que os exilados penduraram nas árvores da Babilônia se calaram por causa dela; no fim, é Babilônia que fica sem música. E os redimidos, de pé junto ao mar de vidro, tocam as harpas de Deus e cantam o cântico de Moisés e do Cordeiro (Ap 15.2-3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A pergunta do v. 4 encontra aí a sua resposta definitiva.
6.3 — O clamor por justiça e a cruz
O v. 9 não é uma profecia messiânica, e seria errado forçá-lo em direção a Cristo. Mas a leitura cristã do salmo precisa perguntar: o que Cristo faz com esse clamor?
Primeiro, ele não o despreza. O Novo Testamento afirma que Deus não fará esperar para sempre os seus escolhidos que lhe pedem justiça sem descanso (Lc 18.7-8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e que o juízo sobre a Babilônia será completo (Ap 18.8 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O clamor das vítimas não é ignorado. O Deus da Bíblia não é indiferente ao sangue das crianças de Jerusalém, nem ao das crianças de qualquer lugar.
Segundo, ele o assume e o transforma. Há uma ligação notável no Evangelho de Lucas. Quando Jesus se aproxima de Jerusalém e a vê, chora sobre ela e anuncia que os inimigos a cercarão e a lançarão por terra, a ela e aos seus filhos dentro dela (Lc 19.41-44 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O verbo grego que Lucas usa é o mesmo que a antiga tradução grega usa no v. 9 deste salmo, para o despedaçar dos pequeninos contra a rocha. Jesus não deseja esse destino a Jerusalém; ele o anuncia chorando. Mais adiante, a caminho da cruz, dirá às mulheres que o lamentavam que guardassem as lágrimas para elas e para os filhos delas (Lc 23.28-31 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O mesmo horror que o salmista pede contra Babilônia, Jesus o vê chegar sobre a sua própria cidade, e a sua resposta é o pranto, não o júbilo. A diferença é imensa, e é a diferença da cruz.
Terceiro, na cruz o juízo e a misericórdia se encontram. O Cristo crucificado ora pelos que o crucificam (Lc 23.34 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)) e, quando insultado, não retribui com insultos, mas entrega a sua causa àquele que julga com justiça (1Pe 2.23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Esse é o modelo. O crente pode, com o salmista, entregar a Deus a dor da injustiça sofrida, inclusive com palavras duras, porque Deus aguenta a verdade do coração ferido; mas, depois da cruz, não pode tomar a justiça nas próprias mãos, nem desejar o mal a crianças inocentes como se isso fosse vontade de Deus. Paulo cita a palavra de Deus sobre a retribuição que lhe pertence exatamente para proibir a vingança humana (Rm 12.19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Por isso, o v. 9 jamais pode ser usado como licença para a violência. A história conhece abusos terríveis de textos bíblicos para justificar massacres, e todos eles traem a direção da própria Escritura. O salmo é a oração de vítimas que não têm poder, dirigida a Deus; não é uma ordem dada a quem tem poder. E, à luz de Cristo, mesmo o clamor por justiça passa pela cruz, onde Deus mostrou que leva o mal a sério a ponto de fazê-lo cair sobre o seu próprio Filho, para que inimigos pudessem ser reconciliados (Rm 5.10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
A Igreja antiga, desconfortável com o sentido literal, leu o v. 9 de maneira alegórica: os pequeninos de Babilônia seriam os pensamentos e desejos maus ainda no começo, que o cristão deve despedaçar contra a rocha, que é Cristo, antes que cresçam. Orígenes, Agostinho e, mais tarde, a Regra de São Bento seguem essa linha. Não é o sentido próprio do texto, e deve ser apresentada como o que é, uma aplicação espiritual; mas mostra que os cristãos sempre perceberam que o verso não podia ser recitado sem passar por Cristo.
6.4 — A Pessoa e a Obra de Cristo iluminando este salmo
O Cristo que chora sobre Jerusalém é o mesmo Cristo que conhece o exílio por dentro. Ele nasceu num país ocupado, foi levado ao Egito quando criança, fugindo de um rei que matou os pequeninos de Belém (Mt 2.13-18 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Mateus, ao narrar esse massacre, cita o choro de Raquel por seus filhos, palavra de Jeremias escrita justamente no contexto do exílio (Jr 31.15 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O menino Jesus escapou daquela matança, e as crianças de Belém morreram; mais tarde, ele mesmo morreria como vítima da violência dos poderosos. O Deus encarnado não está ao lado dos que despedaçam pequeninos; está entre os que choram por eles, e um dia secará as lágrimas de cada um deles (Ap 21.4 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)).
Cristo também é a resposta à pergunta do v. 4. Os exilados não podiam cantar o cântico do Senhor longe do templo. Jesus anuncia à mulher samaritana que chega a hora em que o Pai não será adorado nem naquele monte nem em Jerusalém, mas no Espírito e na verdade que ele mesmo traz, sem depender de um lugar (Jo 4.21-24 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e apresenta o seu próprio corpo como o templo que seria destruído e levantado em três dias (Jo 2.19-21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). Onde Cristo está, ali se pode cantar. Os primeiros cristãos cantaram nas prisões, nas casas, nas catacumbas, nas terras mais distantes, porque o templo foi com eles.
E Cristo é o rei que voltou a Sião. Os profetas prometeram que o Senhor mesmo voltaria a Jerusalém, e Mateus mostra Jesus entrando na cidade como o rei manso anunciado por Zacarias (Mt 21.4-5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Zc 9.9 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O exílio que o salmo lamenta termina quando Deus vem pessoalmente buscar o seu povo, e vem na forma de um Cordeiro.
6.5 — O Evangelho no capítulo
Pregar o Salmo 137 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) cristocentricamente é seguir o caminho do próprio salmo, da lágrima ao juízo, e depois mostrar onde esse caminho chega em Cristo.
Primeiro, o exílio. Todo ser humano conhece algo dessa distância: a casa perdida, a vida que não é mais a que era, a sensação de cantar canções da fé numa terra que zomba delas. E mais fundo, o exílio de que a Bíblia fala desde o Éden: a separação de Deus causada pelo pecado. O salmo não oferece consolo fácil; deixa as lágrimas correrem.
Depois, a memória fiel. O salmista se agarra a Jerusalém quando tudo parece perdido. O evangelho dá a essa esperança um nome e um rosto: Cristo, que entrou no nosso exílio, morreu fora da cidade e ressuscitou para nos levar de volta ao Pai.
Por fim, a justiça. O clamor dos que sofreram injustiça não é desprezado por Deus; ele julgará a Babilônia. Mas o evangelho traz uma notícia inesperada: na cruz, o juízo caiu sobre o Justo, e por isso há perdão também para os opressores que se arrependem. Saulo, que perseguia a Igreja, tornou-se Paulo (1Tm 1.13-16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). O crente entrega a Deus a sua dor e o seu desejo de justiça, confia, como Abraão, na justiça do Juiz de todo o mundo (Gn 18.25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)), e fica livre para orar pelos inimigos.
🔗 7. Conexões Bíblicas (Teologia Bíblica Canônica)
- 2Rs 25.1-21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 2Cr 36.15-21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Lm 1–5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — a queda de Jerusalém e o exílio, com o sofrimento das crianças que o salmo pressupõe (Lm 2.11-12, 20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 4.4, 10).
- Ez 1.1-3 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 3.15; Jr 29.4-7 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Dn 6.10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — a vida dos exilados na Babilônia: as visões junto ao rio, a carta que manda buscar a paz da cidade, a oração voltada para Jerusalém.
- Ob 10-14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Ez 25.12-14 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 35.1-15; Lm 4.21-22 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Ml 1.2-5 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — o juízo profético contra Edom, o irmão que se alegrou com a queda de Jerusalém.
- Is 13.16-19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Is 47 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Jr 50.15, 29 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 51.24, 56 — os oráculos contra Babilônia, de onde vêm a imagem do v. 9 e o princípio da retribuição do v. 8.
- Ex 21.23-25 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Lv 24.19-20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Dt 19.21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Mt 5.38-45 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — o talião como princípio de proporção e a palavra de Jesus que proíbe a retaliação pessoal.
- Dt 32.35 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Rm 12.17-21 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 1Pe 2.23 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — a vingança que pertence a Deus, e o crente que não se vinga, mas entrega a causa ao Juiz.
- Lc 19.41-44 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Lc 23.28-31 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) — Jesus chora sobre Jerusalém e anuncia sobre ela e sobre os seus filhos o mesmo horror que o salmo pede contra Babilônia.
- Hb 11.13-16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 13.14; Gl 4.26 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Fp 3.20 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 1Pe 1.1 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 2.11; 5.13 — o povo de Deus como peregrino, a Jerusalém do alto e Babilônia como nome do mundo hostil.
- Ap 6.9-10 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); 15.2-3; 18.1-24; 19.1-3 — o clamor dos mártires, as harpas dos redimidos, a queda de Babilônia, o silêncio dos seus harpistas e o louvor do céu pela justiça de Deus.
- Na história da Igreja e da cultura, o salmo inspirou a alegoria dos Pais e da tradição monástica sobre os pequeninos de Babilônia, o coro dos escravos hebreus na ópera Nabucco, de Verdi (1842), e canções populares do século XX; na tradição judaica, os vv. 5-6 são lembrados em muitas cerimônias de casamento.
🌍 8. Aplicação Prática Contemporânea com Fundamento Cristológico
Leve as suas lágrimas a Deus. O salmo começa chorando, e a Bíblia não tem pressa de tirar o crente desse lugar. Há perdas que não se consolam com frases. O exilado, o refugiado, a família que perdeu um filho, o crente que vê ruir o que amava podem rezar este salmo sem culpa. Cristo chorou sobre Jerusalém e no túmulo de Lázaro (Jo 11.35 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)); ele não se escandaliza com as nossas lágrimas.
Não transforme a fé em espetáculo. Os exilados se recusaram a cantar os cânticos do Senhor para divertir os seus captores. Há uma tentação de fazer da fé um entretenimento que agrade ao mundo, uma música que se canta para ser aplaudida por quem despreza o Deus que ela adora. O cristão canta, mas canta para o Senhor; e, em Cristo, pode cantar em qualquer terra, porque o seu templo vai com ele.
Lembre-se de quem você é. O juramento dos vv. 5-6 é um antídoto contra a acomodação. O mundo convida a esquecer a pátria, a tornar a Babilônia confortável. O cristão é chamado a pôr acima das maiores alegrias o reino de Deus e a cidade que ele prepara (Mt 6.33 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba); Hb 11.16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)). A mesa do Senhor existe para isso: é a memória que nos impede de esquecer de quem somos.
Entregue a Deus a injustiça que você sofreu. O fim do salmo ensina que é legítimo levar a Deus a raiva diante do mal, e que é a Deus, e não a nós, que pertence a retribuição. Isso não é fraqueza; é a fé que confia no Juiz. A vítima de abuso, de violência, de traição pode dizer a Deus o que sente. Mas, à luz da cruz, ela é chamada a não se vingar, e a deixar que o perdão, quando chegar a hora, nasça do perdão recebido de Cristo. O perdão não nega a justiça: confia-a a Deus.
Rejeite toda leitura que justifique a violência. Nenhum cristão pode usar este salmo para abençoar a crueldade contra crianças, contra povos ou contra inimigos. O Cristo que chorou pelas crianças de Jerusalém e foi morto pela violência dos poderosos é o critério de toda leitura da Escritura.
🤔 9. Perguntas para Reflexão e Estudo
- Os exilados se sentaram junto aos rios e choraram ao se lembrarem de Sião (v. 1). Você já viveu alguma experiência de "exílio", de perda de um lugar, de uma comunidade ou de uma vida que não volta mais? Como a sua fé se comportou nesse tempo?
- Por que os exilados se recusaram a cantar os cânticos de Sião para os seus captores (vv. 3-4)? Em que situações a fé corre o risco de virar espetáculo para quem a despreza?
- O salmista jura nunca se esquecer de Jerusalém (vv. 5-6). O que significa, para o cristão, pôr a cidade de Deus acima da sua maior alegria? Como a Ceia do Senhor ajuda a Igreja a não esquecer?
- Como você entende os vv. 8-9 à luz de Is 13.16 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba), de Rm 12.19 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) e de Lc 19.41-44 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba)? Qual a diferença entre entregar a Deus o clamor por justiça e desejar o mal ao inimigo?
- Jesus chorou sobre Jerusalém e orou por quem o crucificava. Como o modo de Cristo enfrentar a injustiça muda a maneira de o cristão orar este salmo?
- Para meditação e oração: traga a Deus, com sinceridade, uma injustiça que você sofreu ou que outros sofrem. Entregue-a ao Juiz justo, peça a graça de não se vingar e, se puder, ore por quem a cometeu.
📚 10. Para Aprofundamento
Cristocêntrica / Teologia Bíblica:
- Sidney Greidanus — Preaching Christ from the Old Testament (Eerdmans, 1999)
- Christopher J. H. Wright — Conhecendo Jesus através do Antigo Testamento (Ultimato) / Knowing Jesus Through the Old Testament (IVP, 1992)
- Dietrich Bonhoeffer — Das Gebetbuch der Bibel (1940), sobre os salmos como oração de Cristo com a Igreja e sobre os salmos de vingança
- C. S. Lewis — Reflections on the Psalms (1958), em especial o capítulo sobre as maldições
- Erich Zenger — A God of Vengeance? Understanding the Psalms of Divine Wrath (Westminster John Knox, 1996)
- G. K. Beale e D. A. Carson (orgs.) — Commentary on the New Testament Use of the Old Testament (Baker Academic, 2007), sobre Lucas e o Apocalipse
Comentários dos Salmos:
- Derek Kidner — Salmos 73–150 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba): introdução e comentário (Vida Nova, série Cultura Bíblica)
- Leslie C. Allen — Psalms 101–150 (Word Biblical Commentary, 1983; edição revista, 2002)
- Nancy deClaissé-Walford, Rolf A. Jacobson e Beth LaNeel Tanner — The Book of Psalms (NICOT, Eerdmans, 2014)
- Frank-Lothar Hossfeld e Erich Zenger — Psalms 3: A Commentary on Psalms 101–150 (Hermeneia, Fortress, 2011)
- James L. Mays — Psalms (Interpretation, John Knox, 1994)
- Agostinho — Comentário aos Salmos (Paulus, coleção Patrística)
Sabedoria para o Cotidiano
Há perdas que nos deixam à beira de rios estranhos, sem vontade de cantar, e o Salmo 137 (abre o texto bíblico na Bible.com, em nova aba) nos autoriza a chorar diante de Deus sem fingir alegria para agradar a ninguém. Não se acomode à Babilônia: lembre-se de quem você é e da cidade para onde caminha. E quando a injustiça sofrida gritar dentro de você, entregue o grito ao Juiz justo, e não à sua própria mão; o Cristo que chorou sobre Jerusalém e orou pelos que o crucificavam leva a sério o seu clamor e, por causa dele, um dia as harpas voltarão a soar.
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